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Essa Carmen me apanhou

Luiz Carlos Merten

06 Agosto 2017 | 20h59

Estou salvando um texto que comecei a redigir à tarde, antes de ir para o jornal, mas a bateria me faltou. Agora, vai. Lá vou falar de teatro. Fui ver ontem a Carmen. Flávio Tolezani é um querido, a quem conheci no elenco de meu amigo Gabriel Villela. Natália Gonzales, mulher dele, fez a substituição na peça do Dib, Pulsões. Os dois, mais o Vitor Vieira, constitutem o elenco de Carmen. O projeto é da Natalia, que agregou Luiz Farina no texto e Nelson Baskerville na direção. Nelson foi diretor e ator de um espetáculo que o mundo amou e eu odiei, Luiz Antônio Gabriela, sobre seu irmão homossexual que foi ser travesti na Europa e foi assassinato. Sinto muito, mas vi mais oportunismo que sinceridade no espetáculo e além do quê a culpa do Nelson era uma questão de foro íntimo, privado, e o teatro é público. Não me convenceu. Quero dizer que dessa vez gostei, e muito, de Carmen. Fui com o Dib, encontramos Eva Wilma e a filha. Eva é um ícone. Teatro, cinema, TV. Faz parte do meu imaginário. Carmen, o espetáculo, não precisa do meu elogio. Estava cheio, e tem estado assim, no Teatro da Aliança Francesa. Tem mais dois fins de semana em cartaz. Não percam. Luiz Farina criou um texto que, partindo da Carmen mítica – de Prosper Merimée e Georges Bizet, e também de Otto Preminger, e Francesco Rosi, e Jean-Luc Godard, e Peter Brook -, narra uma história de violência contra a mulher. José ama Carmen, mas quer que ela seja sua propriedade. Está condenado, por sua mentalidade machista, a matá-la. Essa é a tragédia. Gostei da concepção, e da forma como a montagem absorve elementos da cultura clássica – o flamenco, a tauromaquia. E gostei do elenco. Os caras estão em cena sem camisa, com as barrigas tanquinho à mostra, mas a força da interpretação, e do espetáculo, vem da respiração. A ondulação do abdomen. Os homens viram animais – touros – em cena. A mulher, Natalia, joga-se. Fêmea e frágil, fortalece-se pelo desejo dos homens. Imagino que seja difícil equilibrar o jogo cênico, a modulação da dicção e o esforço físico. Nelson, o diretor, compensa com o microfone, para projetar a voz, mas o incorpora como ferramenta, inclusive como forma de ressignificar os elementos clássicos. As guitarras distorcidas, as coreografias, tudo agrega ao universo da personagem. E ainda tem Vicente Celestino, com a canção Matei, que tem tudo a ver com o tema, o clima. ‘Senhor delegado/Eu sou um assassino,/Entrego-me à prisão,Cumprindo o meu destino./Estou arrependido,/De praticar o crime,/Deixa que lhe descrevo,/Senhor, como perdi-me…’ Em mineirês diria trem bão demais da conta.