Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Esposamante

Cultura

Luiz Carlos Merten

21 Fevereiro 2008 | 16h38

Agora me perdi. Foi o Saymon ou o Moacir? Fiquei com preguiça de procurar, mas acho que foi o Moacir quem, aproveitando a deixa do Saymon sobre ‘Vagas Estrelas da Ursa’, lamentou o desaparecimento de clássicos italianos que sumiram e são difíceis de resgatar, mesmo em DVD. E ele cita ‘Esposamante’, de Marco Vicario, com Marcello Mastroianni e Laura Antonelli. Conscientemente, ou não, Vicario, diretor de comédias eróticas e medíocres filmes de aventuras (a série dos ‘Sete Homens de Ouro’, interpretada por sua mulher, Rossana Podestà), fez o que não deixa de ser uma espécie de resposta, ou versão feminina, de ‘O Belo Antônio’, que Mauro Bolognini, com roteiro de Pasolini, adaptou de Vitaliano Brancati, também com Mastroianni. No belo Antônio, o garanhão, paralisado pelo amor à mulher, não consegue consumar o casamento e vira motivo de escárnio na machista sociedade siciliana. Ele só passava a ser visto de novo como um homem de bem ao fazer um filho na doméstica, por quem não tinha nenhum afeto. Em ‘Esposamante’, a mulher frígida precisa virar amante do marido, e ter com ele uma relação ‘proibida’ – depois de passar pela cama de outro homem -, para se libertar sexualmente. Há exatamente 30 anos – ‘Esposamante’ é de 1978 -, o filme virou um sucesso de culto no Brasil e o filme que todas as feministas eram capazes de passar de trás para a frente no imaginário. Também gostaria de rever ‘Esposamante’, que tem momentos de um decadentismo estético à Visconti e à Bolognini. Mas confesso que o que gostaria mesmo de rever é um filme um pouco mais antigo, do começo dos anos 60 – ‘Caminho Amargo’ (La Viaccia), que Bolognini adaptou de Vasco Pratolini. Jean-Paul Belmondo, o ator que tinha a cara da nouvelle vague, mudava seu estilo e vestia trajes de época para fazer o pobre Amerigho, que se destruía por amor a Bianca (Claudia Cardinale), a mais bela prostituta de Florença, no fin du siècle. Lembro-me de cenas inteiras deste filme, da beleza de sua fotografia (em preto-e-branco). Será bom mesmo? Ou é o tempo, na lembrança, que termina por esculpir um ‘Caminho Amargo’ ideal? Há tempos que a Versátil nos promete Bolognini. Que ele nos venha, enfim.