Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Espectros

Cultura

Luiz Carlos Merten

04 Junho 2007 | 11h37

Lá vou eu irritar o Medeiros com uma correção. Francisco tem toda razão. Foi erro de digitação. 55 Dias de Pequim é do começo dos anos 60, mais exatamente de 1963. Dois anos antes, em 1961, Nicholas Ray havia feito seu primeiro filme com o produtor Samuel Bronston, na Espanha – O Rei dos Reis. Aliás, ia mesmo volta aos 55 Dias para acrescentar uma coisa (obrigado Medeiros, tu me ajudaste). Quando citei o esplendor da montagem na abertura do filme de Ray, esqueci-me do fundamental. Nick Ray é autor de uma célebre definição – “O cinema é a melodia do olhar”. E o que conduz a montagem, naqueles dez minutos geniais, é justamente o jogo de olhares. Meu amigo Carlos Pereira, que gosta dos filmes recentes de Carlos Reichenbach… Tudo bem, mas eu tenho impressão que tu gostaste do filme errado. O filme do Carlão que se passa no Sul é Bens Confiscados, com Betty Faria, que eu, com todo respeito por ti e por ele, acho horroroso. Dois Córregos, cujo título faz referência a Dois Destinos (Cronaca Familiare), do Zurlini, não é nenhuma obra-prima, mas é muito melhor. E se passa no interior de São Paulo. Quanto ao Wellington, que me cobra um texto sobre Inesquecível – aguarde! Está saindo amanhã no Caderno 2. Não quero furar o jornal, escrevendo hoje, aqui, o que poderá ser lido amanhã. Mas acho que o filme de Paulo Sérgio Almeida está sendo vítima de uma incompreensão básica. Estão cobrando engajamento político e social do diretor, mas ele fez um filme sobre cinema, que só pode ser visto como ficção. Se as pessoas conhecessem mais literatura latino-america, ou pelo menos o conto de Horácio Quiroga (O Espectro), talvez captassem mais a intenção. Prefiro outras coisas no cinema brasileiro atual – digo nesta temporada (Cão sem Dono, de Beto Brant; Mutum, de Sandra Kogut, que vi em Cannes)-, mas com certeza Inesquecível não é embalagem 10, conteúdo 0, como andam dizendo. É só pensar o filme como cinema. Volto amanhã, depois do jornal, ao filme do Paulo Sérgio, mas já quero deixar registrado – Guilhermina Guinle. O que é aquilo, meu Deus? Além de bela, é intensa. Como que ninguém vê isso? Tá todo mundo cego?