As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Esculpido na pedra, Tom Cruise

Luiz Carlos Merten

08 Junho 2014 | 21h50

Embora sejam coisas – mídias e, quem sabe, públicos – diferentes, não tenho muita vontade de ficar repetindo no blog os textos (as críticas) do jornal. Fizemos, Luiz Zanin Oricchio e eu, um Gostei/Não gostei de Riocorrente, de Paulo Sacramento. Eu não gostei e, em contrapartida, estou disposto a defender até a morte A Primeira Missa; acho ultrajante que o filme de Ana Carolina esteja em um cinema, em um horário, com tanta m… ocupando circuitos imensos. Gostaria de ter feito outro Gostei/Não gostei sobre Que Estranho Chamar-se Federico, de Ettore Scola, mas meu editor em exercício preferiu deixar só o texto elogioso do Zanin. Lembro-me, sou capaz de jurar, que Sérgio Augusto começou seu texto s0bre A Viagem do Capitão Tornado dizendo que há muito tempo Scola não nos dava um bom filme, mas finalmente estava pagando a dívida, e com juros. Realmente, Capitão Tornado é um grande Scola, o meu preferido do diretor, mas isso foi há 24 anos e, desde então, o pobre Scola tem rolado ladeira abaixo. Já desisti de vê-lo reerguer-se e até tinha achado muito digna (e sensata) sua decisão de se aposentar, mas, pelo visto, foi alarme falso e ainda vamos ter de assistir a outras obras ziguezagueantes. Muita gente tem chorado de emoção com o retrato que Scola faz de Fellini, mas eu confesso que sou capaz de chorar de raiva, porque, na verdade, achei o filme muito ruim e autoindulgente, uma coisa assim ‘Nós que nos amávamos tanto, que éramos tão amigos e talentosos’, Federico e eu. Mesmo achando que o último Fellini foi bem decepcionante, A Voz da Lua – mas nunca mais revi o filme e, se por acaso mudar de opinião, não terei o menor problema em admitir; pelo contrário, vou adorar -, Federico está, assim, camadas acima de Ettore. A audácia do cara, se nivelando com o melhor que ele. Gostaria de ter formulado minhas reticências no impresso, mas, enfim, o momentum passou. E agora eu quero dizer é que estou surtado, porque finalmente vi Edge of Tomorrow/No Limite do Amanhã, de Doug Liman, que, para pegar carona na própria história – um cara que fica morrendo e renascendo no curso de uma guerra contra os alienígenas -, está sendo considerado a ressurreição de Tom Cruise, porque virou um grande sucesso planetário, o primeiro (em anos) do astro fora da franquia Missão Impossível (e Protocolo Fantasma era muuuuuiiito bom). Confesso que ainda não consegui dar conta da complexidade cênica e narrativa de No Limite do Amanhã – um filme que parece estar em processo, sem fim -, mas chego lá. Só quero dizer que me emocionei muito com a desmontagem do heroísmo de Liman e Cruise, valendo lembrar que é outro roteiro de Christopher McQuarrie, baseado num mangá, e o escritor tem estado associado ao astro em seus últimos trabalhos, inclusive em Jack Reacher, do qual gostei bastante (e o livro é ainda melhor). O problema, reconheço, é que Tom Cruise se transformou numa entidade, e tem sempre a cientologia por trás. Mas ele, que já era bom ator, está melhor depois de velho. Assume suas rugas, o pescoço tem dobras e dobras, é um rosto de pedra, como o dos ícones do passado, mas é o olhar que me impressiona. Tem algo de desvario – não é mole ficar salvando o mundo a toda hora -, embora esse olhar perplexo, ferido, seja, como diriam os semiologistas, signo de vulnerabilidade. Vejam, e depois digam se exagero.