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Luiz Carlos Merten

14 Maio 2009 | 12h56

CANNES – Li hoje uma entrevista de Lou Ye numa dessas revistas diárias que circulam durante o festival. Quase me arrependi por não haver gostado de ‘Nuits d’Ivresse Printaniére’. Ele conta que fez o filme de forma clandestina, mas não pelo tema, o homossexualismo, quasse explícito, numa sociedade repressora. Ocorre que, por causa de ‘Summe Palace’, sobre o protersto na Praça Tiennamen, em 1989, que mostrou aqui em Cannes, à revelia das autoridades chinesas, ele teve sua licença de cineasta cassada por cinco anos. Lou Ye não protesta política nem ideologicamente. Ele crítica a Ancine chinesa por privá-lo da sua profissão, do seu ganha-pão. Como desafio, ele fez esse filme urgente e clandestino, com seu visual desleixado (feio?). Fiquei ‘quase’ com vergonha de mim mesmo por não ter gostado. O filme é sobre amores brutos, impossíveis. O homossexualismo é decisivo, mas não sei se diria se o filme é sobre isso. Sobre esse assunto, estou agora em outra dúvida mortal. Daqui a pouco, 7 da noite em Cannes, 2 da tarde no Brasil, começa ‘Cannes Classics’, a seção do festival que exibe clássicos reataurados. O filme de abertura é ‘Victim’, de Basil Dearden, com Dirk Bogarde. Este é um dos raros filmes dos quais se pode dizer que realmente mudou o mundo. A vítima do título em inglês – no Brasil, chamou-se ‘Meu Passado Me Condena’ – é esse homem perseguido e chantageado por ser gay. Na época, começo dos anos 60, o homossexualismo era considerasdo crime na Inglaterra, enquadrado por leis que datavam do reinado de Vitória. O impacto do filme foi tão forte que um clamor da própria sociedade levou à mudança da lei e o homossexualismo foi despenalizado como prática entre adultos. Dirk Bogarde, na época um grande galã, saiu do armário e depois fez os grandes filmes que todo mundo reconhece, com Joseph Losey e Luchino Visconti. É ou não é um programão? E, logo em seguida, na sequência, Cannes Classics resgata a obra-prima de Martin Ritt, ‘The Molly Maguires’ (Ver-Te-Ei no Inferno), com Sean Connery, Richard Harris e Samantha Eggar. Na mesma hora, ‘Air Doll’ e ‘Thirst, This Is My Blood’, os novos, respectivamente, Hirokazu Kore-eda e Park Chan-wook, estarão sendo exibidos em outras seções do festival. E até ‘Lawrence da Arábia’, no esplendor de seus 70 mm, estará no Cinema da Praia. Isso é Cannes. Sempre muita coisa para se ver, para selecionar no mesmo horário. E como se escolhe? Uni-duni-tê?