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Luiz Carlos Merten

23 Maio 2008 | 13h59

CANNES – Lá vou eu provocar irritação em alguns de vocês, que me cobram para fazer ‘crítica’. I’m in heaven. Tinha o horário ao vivo na Rádio Eldorado e quase perdi a sessão de imprensa – que também era a oficial, com tapete vermelho – de ‘My Magic’. Há dois anos, o diretor de Cingapura Eric Khoo havia aberto a Quinzena dos Realizadores com um filme intitulado ‘Be with Me’, que não vi, mas que Pedro Butcher jura que era maravilhoso. Já contei aqui que Pedro e eu raramente afinamos, mas este foi um daqueles casos em que saímos, ambos, chapados do palais. ‘My Magic’ conta uma história de pai e filho. O garoto é estudioso, o pai cai de bêbado e a relação é complicada, marcada pela ausência da m’ae, que o filho acredita que abandonou a fam[ilia. Eric Khoo fez um filme sobre a degradação do corpo. O pai submete-se a todo tipo de violência física para conseguir o dinheiro que o filho lhe reclama, lá pelas tantas, para poder continuar estudando. Ele se fura com agulhas, engole fogo, apanha com correntes. O que ocorre no final é importantíssimo – é o que, segundo o diretor, no dossiê de imprensa, leva o filme para outro plano e lhe confere o significado definitivo. Este desfecho, que não vou contar, foi muito conceitualizado por Eric Khoo e sua equipe, para que saísse perfeito numa produção filmada em apenas 12 dias. Digamos que o filme sobre a via-crúcis do corpo vira um filme sobre o próprio cinema. E o ator? Bosco Francis é amigo do diretor. É mágico profissional. Nunca havia feito nenhum filme. Como Eric Khoo acrescenta no dossiê de imprensa, ele sempre quis fazer alguma com, e para, o amigo. O menino é Jatishweran. Juntos eles possuem uma química que, para mim, pelo menos, remeteu a filmes clássicos como ‘O Garoto’ e ‘Ladrões de Bicicletas’. Não vou contar uma coisa muito interessante porque está na abertura do meu texto de amanhã no ‘Caderno 2’, mas tem a ver com o `Che` de Soderbergh. Acho, modestamente, que o que faz a grandeza do cinema não é a sua diversidade e sim, a capacidade de nos surpreender (e maravilhar). Eric Khoo fez as duas coisas comigos. E eu estou, aqui, no paraíso dos cinéfilos.