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Luiz Carlos Merten

28 Outubro 2010 | 18h21

Olá. Por mais que tente não estou conseguindo postar grande coisa sobre a Mostra. Passo a maior parte do tempo correndo atrás de entrevistas, fazendo matérias para o jornal e o resultado é que o blog fica à deriva. Fui ver ontem ‘Ainda Agarro Essa Vizinha’, na Sala Cinemateca. Havia uma meia dúzia de gatos pingados assistindo à versão restaurada da comédia de Pedro Carlos Rovai. Já virou lugar comum dizer que o público da Mostra não gosta de cinema brasileiro, e menos ainda de velharias nacionais. Me lembro de que, ao assistir à retrospectiva de Joaquim Pedro em anos anteriores, uma sessão quase foi cancelada porque não tinhas ninguém. Cheguei esbaforido e aí chegaram mais dois ou três paras cumprir o cronograma. Em compensação, havia 12 mil almas para ver ‘Metrópolis’ com acompanhamento ao vivo no Ibirapuera, no domingo. Espero que tenha sido pela música, porque, em matéria de Fritz Lang, qualquer de seus filmes em Hollywood – que os críticos durante décadas tentaram subestimar – dá de dez na aventura futurista, que sobrevive muito melhor na inspiração visual que forneceu a Ridley Scott (em ‘Blade Runner’), por exemplo. Ri muito na ‘Vizinha’ e fiquei pensando, com meus botões, que o filme, por sua incorreção política – seus preconceitos? –, sobreviveu ao regime militar, mas hoje talvez não fosse feito, por sua ‘escrotidão’. Por exemplo, o gay da história, interpretado por Carlos Leite, não tem nome. É ‘viado’ para lá e para cá, o tempo todo. Era preconceituoso, mas no fundo talvez houvesse mais respeito. Nessa era de liberalidade e correção, você vai ao Shopping Frei Caneca e topa com ‘tgrocentos’ pares de gays e lésbicas aos abraços e beijos. E aí tem uma festinha na USP e os bofes cobrem de pancada os coleguinhas de mãos dadas. Qued progresso é esse? Face à profusão de mulheres nuas, um menininho baixa as caças, mostra o pintinho e grita – ‘Eu também tenho!’ Rovai hoje em dias talvez fosse processado por abuso. O visual da ‘Vizinha’ é cafona, mas há ali dentro alguma coisa bem interessante. A tia quer vender a sobrinha seduzida pela promessa do rufião de que a garota vai faturar 500 milhões por ano (a moeda da época tinha um monte de zeros). O conquistador barato chega aos 30 anos sem trabalhar porque não sabe fazer nada, mas se regenera por amor e vai casar de cueca, porque perdeu a calça na despedida de solteiro. O gay termina com o fortão da história no meio de um grupo de tocadores de gaita de fole (e ele levanta a saia de um por um, exclamando ‘mulher de saco!’). É tudo muito absurdo, mas já passou, poucos viram. Leon Cakoff fica furioso quando comparo. Problema dele. No Rio, o Odeon teria lotado, como lotou com a versão restaurada de ‘Rico Ri à Toa’, de Roberto Farias.