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Luiz Carlos Merten

23 Dezembro 2006 | 09h15

Prometi ontem e cumpro hoje. Volto a Eragon. Imagino que os coleguinhas tenham tratado o filme de Stefen Fangmeier a pontapés. É o tipo de filme de que crítico não gosta. Bem – eu gostei. Especialista em efeitos especiais, Fangmeier se baseou no livro do Christopher Paolini, um garoto que tinha – nunca sei a idade exata – 17/18 anos quando o escreveu, assumidamente influenciado pelo Tolkien de O Senhor dos Anéis. Tolkien tinha uma formação erudita muito grande. Criou uma saga cult. Paolini não possui sua complexidade, mas o universo de dragões e cavaleiros que ele criou transpira uma fascinação pelo mito, pelo relato heróico, pelo relato ancestral que a mim, pelo menos, fascina. Já disse que tenho necessidade de fantasia, de aventura, mas desde garoto tive uma fascinação maior pelos mitos clássicos, formulados por teóricos como Mircea Eliade, do que pela ficção científica. Gostava do Clarke midiatizado pelo Kubrick, mas sempre achei o próprio Clarke meio ilegível. Preferia o Asimov e o Ray Bradbury, que virou um reacionário horroroso. Conversei essas coisas com o Fangmeier, quando o entrevistei por telefone. Citei até o Hércules na Conquista da Atlântida, do Cottafavi, que é um dos meus filmes cults e ele, claro, não conhecia (mas poucos conhecem, hoje em dia, é verdade). Ele foi muito simpático. Disse que, num filme como este, os efeitos são decisivos e ele se preocupou, acima de tudo, com o vôo do dragão, que filmou como se fosse um vôo de caça a jato. Mas isso é um detalhe, mesmo que importante, da história. O que o atraiu foi a figura do garoto Eragon, fascinado pelos mitos e se transformando, ele próprio, num deles. Sou muito tocado por esse tipo de coisa. Por que eu?, pergunta-se Eragon. Sou um modesto agricultor, não sirvo para nada. Porque Safira, a fêmea de dragão, te escolheu, explica a ‘mocinha’. Gostei. Não conto isso para convencer a quem quer que seja. No meu curso na escola Paulista Cultural, volta e meia falava de ação, de aventura, de fantasia. Tinha uma aluna, Patrícia, que me compreendia melhor do que ninguém. Dizia que eram as idissioncriasias do Merten. Não acho que seja só idiossincrasia. Já que é para enfiar o pé na jaca, acho que os personagens fantásticos de Eragon – o garoto, o Brom, interpretado por Jeremy Irons – me parecem mais reais do que os de Os Infiltrados, por exemplo. Aliás, Fangmeier criou o seu Leonardo DiCaprio, o filho do traidor que quer se redimir o limpar a honra da família.

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