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Luiz Carlos Merten

04 Julho 2007 | 08h35

Bom-dia! Voltei e vocês nem sabiam que eu tinha ido, embora devam ter estranhado um dia inteiro (ontem) sem posts. Na segunda, depois do almoço, fui ao Rio para umas entrevistas. O objetivo principal era Breno Silveira, diretor de 2 Filhos de Francisco, para o projeto do Festival do Rio a que já me referi (sem dizer qual é). Breno está filmando. Fui visitá-lo no set de Era Uma Vez… A cena que vi ser rodada era no Arpoador. O filme atualiza Romeu e Julieta, trazendo a tragédia lírica de Shakespeare para o Rio atual. Ela é uma garota de classe média alta, ele é do morro. Conhecem-se na praia, onde o choque entre morro e asfalto é atenuado. A cena de segunda era a do rompimento do casal. Tiago Martins – você sabe quem é; em Belíssima, ele fazia o namorado de Maria João – tenta fazer ver à namorada que a relação não tem futuro. “Não dá; cai na real”, ele diz. Foi muito bonito ver o Breno no trabalho. Ele busca a emoção. Para um ex-fotógrafo, chega a ser curioso ver como Breno arma a luz e o plano e se concentra nos atores. Pode ocorrer o diabo. Caiu uma daquelas mantas para controlar a luz e ele não cortou. O casal estava sentado num banco de praia. Achei engraçado porque o Breno sozinho puxou o banco que, para mim, era de pedra, mas era cenográfico. Ficou ali agachado, no meio dos dois, controlando a emoção, querendo ver o olho. Ontem, a cena era no Cantagalo. Subi o morro para ver Rocco Pitanga, o irmão de Camila – que faz o irmão de Tiago na trama – ter seu estouro emocional, virando uma mesa ao ser pressionado pelo traficante que lhe cobra uma dívida. Se há uma coisa que eu gosto é de filmagem em morro. Não sou tonto de não saber que ali dentro sou um corpo estranho, mas adoro caminhar, olhar, coisa que não conseguiria fazer, se não fossem os acordos entre comunidade e produção que franqueiam o espaço. Mas é outro mundo. Para chegar ao alto do morro – de um lado Cantagalo; de outro, Pavão e Pavãozinho –, a gente toma um elevador que deixa no meio de um espaço coberto, onde há uma agência (será a palavra certa?) do projeto Criança Esperança. Havia um monte de crianças fazendo jiu-jitsu. Passeei por ali, olhando aquela garotada. Nas paredes, painéis com oportunidades de empregos e cartazes chamando para cursos. Há um abismo entre o morro e o asfalto, mas existem ali pais, líderes comunitários que querem, como em qualquer lugar, o melhor para seus filhos. Quantas daquelas crianças que brincavam ali inocentemente – rindo, felizes – vão ter condições de viver? As histórias que a gente ouve no morro… Adorei passar aquelas horinhas lá em cima e depois saí com o coração pesado. Ali havia uma trégua. E quando a guerra recomeçar?

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