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Luiz Carlos Merten

22 Junho 2007 | 08h37

Bom dia! Não sei se em todo lugar é assim, em todas as ‘firmas’, mas no Estado o mês de junho traz as festas e na redação são freqüentes as comemorações, tipo ‘arraiais’. Todo mundo traz alguma coisa, pé de moleque, amendoim, arroz-de-leite (que é como no Sul se chama o arroz-doce dos paulistas). É uma comilança que não acaba mais. E – pior – muito doce, o que deixa os ‘esganados’ (outro termo gaúcho, para quem tem o olho maior que a barriga), como eu, permanentemente, enjoados. Julho já vai chegar e eu volto à normalidade. Arghhh! Mas estou desde ontem, na verdade desde quarta, para postar alguma coisa. Ainda não olhei os comentários de ontem, que sempre me direcionam para outros posts, por isso vou logo a ele. Na quarta, encontrei um amigo na sessão de 13 Homens e Um Novo segredo. Conversamos, perguntei qual o filme muito bom que ele tinha visto ultimamente. O último havia sido O Baixio das Bestas, já há algum tempo. E o Beto, perguntei, referindo-me, claro, ao Brant e a Cão Sem Dono. Ele me disse que havia gostado muito, exceto do final, muito abrupto, aquela mulher que está morrendo e volta, linda e faceira. Até comentei com o Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, que também gosta daquele desfecho que não é muito explicado e no qual as coisas ocorrem abruptamente (como na própria vida, talvez?). Mas ontem, no jornal, entre um pé-de-moleque e um doce de batata-doce, Daniel Pizza comentou o Cão Sem Dono e disse que também ele se havia decepcionado com o final. Ou seja, cada um de nós viajou de maneira diferente naquelas imagens.Coloco o assunto para vocês, mas é engraçado. Desde que vi o filme pela primeira vez, tive uma sensação muito forte, mas acho – não vou pesquisar para confirmar – que o filme me dava a sensação de work in progress. Era mais um rascunho que um filme propriamente acabado e a descoberta de um método que eu não sabia aonde poderia levar o Beto, mas achava muito interessante e intuía que dali poderiam vir grandes coisas, maiores ainda. Falo sempre no Beto, mas Cão Sem Dono é dele e do Renato Ciasca. Eles vão achar que estou doido, mas se há uma coisa que quero saber é – o que vão fazer a seguir? Sei que decidi! Vou ver, acho que pela quinta vez, o Cão. Gosto tanto do Jairo Andrade e da Tainá Müller, acho o diálogo dele com o pai uma coisa tão maravilhosa. Acrescenta um novo capítulo à relação de pais/patrões de Lavoura Arcaica e Bicho de Sete Cabeças ou à mãe/patroa de As Três Marias. Sempre gostei de ver naquelas relaçõeas familiares uma idéia do Brasil. Ela muda em Cão Sem Dono, porque o País mudou (e virão os antilulistas para dizer que mudou para pior). Como em certos filmes do Ken Loach – o diálogo/desabafo das duas irmãs em Pão e Rosas –, Jairo e Tainá me parecem tão reais, tão verdadeiros que eu tenho a sensação de ser um voyeur, invadindo a privacidade daquelas pessoas.