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Luiz Carlos Merten

15 Março 2011 | 15h44

Teria de fazer nem sei que pesquisa, mas recentemente alguém andou comentando aqui que assistiu a ‘Horas de Desespero’, a versão de William Wyler, com Humphrey Bogart e Fredric March. Foi o Celdani? Mauro Brider? Lembro-me que o autor do comentártio destacava o sentimento de claustrofobia e o uso que Wyler sempre gostou de fazer de ambientes confinados, não apenas a casa desse filme, mas também a delegacia de ‘Chaga de Fogo’ e o cativeiro de Samantha Eggar em ‘O Colecionador’. Antônio Moniz Vianna, o lendário crítico de ‘Correio do Manhã’, amava Wyler acho que acima de todas as coisas, mas não era único nesse culto (ou devoção). André Bazin também comprou muitas batalhas por Wyler. Acho interessante lembrar o que diz Jean Tulard no ‘Dicionário de Cinema’. Ele observa que não se encontra no cinema a mesma preferência por temas que se pode anotar em John Ford ou Tay Garnett. No máximo, ele assinala uma clara predileção por roteiros psicológicos de fundo social. Mas Tulard ressalta que não se pode definir o estilo de um diretor por sua predileção pela análise psicológica nerm pelço realismo social, ainda mais que os roteiros de Wyler nunca eram inéditos. E, no entanto, Tulard cita Bazin, que sempre identificou a assinatura do autor. Ela está toda na forma, principaslkmente na profundidade de campo, que Wyler usava mesmo nos ambientes mais exíguos, permitindo ao espectador fazer ele próprio o corte e estrudar cada personagem de acordo com sua vontade. Gosto muiito de alguns filmes de Wyler, e não são os mais famosos. Nunca consegui me deixar seduzir por ‘Os Melhores Anos de Nossas Vidas’, por exemplo, mas, em compensação, amo de paixão ‘Da Terra Nascem os Homens’ (The Big Country), que não me canso de rever. Wyler fez tantos filmes entre quatro paredes que eu acho que resolveu se compensar filmando, daquele jeito, os amplos espaços abertos do western. Aquela luta de Gregory Peck e Charlton Heston é antológica, como a partititura de Jerome Moross. E o Burl Ives! Seu patriarca brutamontes, que lhe valeu o Oscar de coadjuvante, é um regalo. E o filme ainda tem Jean Simmons. Mais do que um clássico, ou uma obra-prima, ‘Da Terra Nascem os Homens’ é um dos filmes mais prazerosos de ver que conheço. A cada (re)visão, sinto-me recompensado.