Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘Entre os Muros’

Cultura

Luiz Carlos Merten

14 Março 2009 | 10h58

Ia ao teatro, ontem à noite, mas terminei revendo ‘Entre os Muros da Escola’. Já havia gostado (muito) do filme de Laurent Cantet quand o vi em Cannes, no ano passado, e até joguei minhas fichas (no blog) de que ganharia a Palma de Ouro, mas ontem gostei ainda mais, se é que se pode dizer que isso é possível. ‘Entre les Murs’ é muito forte. Com base no livro de François Gégaudeau, Cantet conseguiu o que queria – um filme sobre jovens, sobre a escola pública e sobre a França multissocial e multirracial concentrado numa sala de aula. Nas duas entrevistas que me deu sobre ‘Entre les Murs’ – em Cannes e, aqui no Brasil, do Rio, pelo telefone, domingo passado -, ele contou que deu sequência a um dos episódios decisivos de seu filme, a expulsão de Suleymane o garoto do Mali. Ele foi à África filmar Suleymane de volta às origens, mas concluiu que isso enfraquecia seu filme. A força está justamnte no fato de ele não sair de entre os muros para traçar o retrato mais vivo da sociedade francesa atual que o cinema mostrou ultimamente (eu acho). Tenho ido à França com frequência, é o país onde mais ando de metrô, e me surpreende muito ver a diversidade racial e social dentro daqueles trens. A quantidade de africanos e árabes com trajes típicos é imensa e, muitas vezes, supera a daquilo que se poderia definir como mais auenticamente francês. Na Alemanha, não encontro essa diversidade nem esse colorido. A França atual foi invadida por suas antigas colônias, e esse é um dos pontos de tensão interna. A direita francesa não se confoma com isso. Mal comparando, adoro o filme de Christophe Honoré ‘A Bela Junie’, que também não deixa de ser sobre a escola, mas, no limite, sou forçado a admitir que prefiro o de Cantet, por sua extrardinária riqueza. E que idéia genial foi fazer o filme com o próprio Gégaudeau. ‘Entre les Murs’ teria sido diferente, e não creio que melhor, com um ator profissional no papel do ‘prof’. O diálogo, as situações, tudo é tão ‘real’ e evolui tão rápido que só ontem pude prestar atenção, realmente me fixar na câmera, ou para ser exato, nas câmeras e nas interpretações. O método do diretor consistiu em trabalhar sempre com três câmeras muito maleáveis, para captar a dinâmica do jogo do professor e dos alunos. É notável, mas não creio que seja possível captar essa riqueza a uma só visão. A gente sempre diz que, se consegue prestar atenção na técnica, é porque o filme é ruim. Que nada! Tenho a impressão de que ‘Entre os Muros’ vai ser um daqueles filmes que surpreendem e crescem, a cada (re)visão. Ontem, já vi coisas, nuances, que me haviam passado despercebidas. Cantet me contou que adoraria levar o mesmo procedimento – filmagem simultânea com várias câmeras, roteiro flexível, improvisação dos atores – para o cinema de gênero, em especial para um filme de época. Espero viver para ver. E os atores! Além do prof, três ou quatro me encantam. Suleymane, Mumbha, Esmeralda e Cherif. Cantet não fez um filme para a gente torcer, seja pelos alunos ou pelo professor. Seu desafio, como ele diz, era tentar não ser moralista. A garotada é selvagem, ou parece selvagem, mas a expressão zombeteira de Esmeralda quando diz que leu Platão, A República’, e faz aquela observação – não é uma leitura de ‘vagabunda’, não? – me parece um toque de gênio, a cereja do bolo da provocação. O próprio professor tem um jeito meio ‘afrescalhado’, perdoem-me pela expressão, no começo. Ele se requebra, quando caminha. Os alunos, e Suleymane, o interpelam – ele é homossexual? A cena é muito bem construída, mas o filme todo é muito bem construído. Esse embate entre a língua erudita, a palavra refinada, e o linguajar urgente das ruas, me deixa louco. Gostei demais, e como discussão sobre a linguagem oral acho que poderá ser muito interessante, talvez, tentar comparar o filme de Cantet com o documentário ‘Palavra (En)cantada’, de Helena Solberg, que também estreou ontem. No meio do filme de Cantet, me peguei pensando no de Helena. Vou (re)ver para ver se dá samba ou se foi uma ponte fugaz, por alguma palavra, ou situação, particular.

Encontrou algum erro? Entre em contato