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Entre irmãs! Marjorie, Nanda e seus ‘príncipes’

Luiz Carlos Merten

22 Setembro 2017 | 00h14

Tem gente que acha que Breno Silveira faz cinema para TV. Novelão – já pensando nos capítulos para exibir depois na Globo. Gonzaga virou série. E, aliás, 2 Filhos de Francisco está virando musical – será que ele também pensava nisso? A verdade é que eu gosto desse cinemão do Breno, que tem uma brasilidade muito forte. 2 Filhos inscreve-se no mundo rural, carrega os gérmens de Humberto Mauro no ciclo de Cataguases. Gonzaga marca o encontro do sertão com a Cinédia. Me encanta essa amorosa recriação dos detalhes, numa estrutura romanesca, com perfume de melodrama e a reverência que Breno tem pelos atores. Fui ver Entre Irmãs na terça e confesso que tremi nas bases quando Breno me disse que o filme tinha 2h35, mas o Leo, da Conspira, do lado dele, me disse que iam passar sem dor. Fiquei até com gostinho de quero mais – mas não é de que se foda, como diz a Camila Morgado na comédia de Pedro Amorim, Divórcio, em que Murilo Benício e ela estão ótimos. Entre Irmãs em algum momento se chamou As Costureiras de Lampíão, ou do Cangaço. Marjorie Estiano e Nanda Costa, unidas desde meninas. Nanda sofre um acidente e fica aleijada de um braço. Sofre com isso. Acha que ninguém vai gostar dela. Quando o cangaceiro Carcará a intima a segui-lo, ela larga tudo – tia, irmã – e vai com ele. Marjorie arranja um pretendente rico que a leva para a cidade grande, mas ela não sabe que se trata de um arranjo, um negócio. O filme dá conta das duas irmãs, daí ser longo, clássico (sentimental?). Muita música – Antônio Pinto, com todos os sintetizadores a que tem direito. Marjorie, que sonha com um amor romântico – um principe encantado? -, tem a sina da Cinderela Maria Vargas em A Condessa Descalça, um grande Joseph L. Mankiewicz. Durante todo o tempo, nós, o público, nos perguntamos como, quando as irmãs vão se reencontrar. Pois se reencontram e a sonhadora Marjorie admite para si mesma que Nanda, afinal, foi quem encontrou seu príncipe. Ele, Carcará, cabra da peste, é Júlio Machado, o Joaquim de Marcelo Gomes. Grande Júlio. O outro, o Andrade, já não reina sozinho nos nossos filmes. Na capital, Marjorie descobre que o sogro é um cientista que mede cérebros tentando encontrar a origem da perversão genética que conduz à criminalidade, ao cangaço. A falsa e desumana modernidade. No limite, Marjorie adquire coragem para se insurgir contra isso. Não fazia a menor ideia do filme que ia ver, e por isso não vou muito adiante para evitar spoiler, para que vocês façam suas descobertas, como fiz as minhas. Mas gostei das histórias cruzadas e, para bons entendedores – ou cinéfilos -, até já entreguei o que acontece. O filme passa fora de concurso no Festival do Rio. Estreia em outubro, na sequência. Na sessão para convidados, na noite de terça, Breno citou o momento difícil do cinema brasileiro e defendeu sua vontade de fazer essas sessões (privadas?) para colocar o filme na rua. 2 Filhos de Francisco começou mal, foi salvo pelo boca a boca. Virou o megassucesso que todo mundo sabe. Falem das irmãs, ele pediu. É o que estou fazendo. Gostei do filme, chorei com as irmãs. No final, Marjorie diz uma coisa, um segredo que a vida toda a consumiu. Nanda responde – ‘Eu sei, sempre soube.’ Esperem para saber do que se trata. Achei lindo. Breno Silveira não está inventando a roda, mas, para o cinema brasileiro andar, são necessários muitos filmes como o dele. Onde estão os outros?