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‘Entre Irmãos’

Luiz Carlos Merten

02 Março 2010 | 15h49

Clodoaldo resolveu me corrigir. Havia escrito ‘Cheguei em casa’ e ele desembestou (é gauchismo) que deveria ser ‘cheguei a casa’. Só se for na tua, Clodoaldo. Cheguei à casa do Clodoaldo, aí teria até crase. Se é na minha, está certo – cheguei em casa. Feita a pequena ressalva, acabo de assistir a ‘Entre Irmãos’, o novo Jim Sheridan, que transpõe a história de Caim e Abel para os EUA contemporâneos, para falar das consequências da Guerra do Iraque na vida norte-americana. O começo do filme parece uma mistura de vários outros. Tobey Maguire faz o militar que se despede da mulher (Natalie Portman) e regressa ao Iraque. Naquela paisagem desolada – os signos da destruição estão em toda parte -, ele diz que se sente em casa. Lembra ‘Guerrra ao Terror’, e Kathryn Bigelow é mais ‘viril’ (como diretora) do que Sheridan. Logo o helicóptero do cara cai, tem um corte, toca a campainha na casa e ali estão os dois militares com a malfadada notícia. Se fossem Woody Harrelson e Ben Foster, o filme poderia ser ‘O Mensageiro’ (e o de Oren Moverman também é melhor). Não é que não tenha gostado de ‘Entre Irmãos’, ou esteja querendo implicar. Na verdade, não gostei (muito), mas não é a pior experiência do mundo ficar olhando Jake Gyllenhaal, Natalie Portman e Tobey Maguire, este último se esforçando para provar que é bom ator (e que deveria, talvez, ter sido indicado para o Oscar). O filme avança e recua em relação às situações e personagens. O pai, o irmão desajustado etc, todos provocam uma reação imediata contrária no espectador, mas logo em seguida ‘Entre Irmãos’ relativiza os pontos de vista e reabilita – humaniza? – esses personagens. Caim é o bom moço que só necessita de uma oportunmidade para se revelar como tal, o pai repressor reconhece que falhou com os filhos etc. Sinceramente, o filme não me acrescentou muito, nem como tentativa de compreensão dessa guerra que corre o risco de substituir a do Vietnã no imaginário dos gringos. Algumas ideias são boas. Na primeira vez, à mesa, Gyllenhaal, saído da cadeia, faz uma observação para o fato de o irmão estar indo para a guerra, matar os bad guys, Gyllenaal pergunta quem são os maus, a sobrinha (filha de Tobey e Natalie) responde que são ‘os barbudos’ (árabes, claro) e o pai milico, Sam Shepard, exige respeito da ovelha negra, porque o outro filho é o herói da família. Existem várias cenas interessantes para documentar a implosão do grupo familiar, mas não creio que, no limite, ‘Entre Irmãos’ tenha resultado um bom filme. O recurso psicanalítico – Tobey Maguire se autodeprecia para purgar sua culpa, vejam o filme para saber do que é culpado – me pareceu meio fácil. Por outro lado, existem finais ‘abertos’ que me parecem necessários em certos filmes (esperem pelo romeno ‘If I Want To Whistle, I Whistle’, do qual gostei tanto em Berlim, para conferir). Aqui, fiquei só com uma sensação de impotência. O diretor e seu roteirista simplesmente não souberam como potencializar num desfecho satisfatório a tragédia de culpa que narram.