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Cultura » Entre Deus e o Diabo, na mão de um e no pé do outro

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Luiz Carlos Merten

22 Setembro 2008 | 12h00

Cada vez que eu falo de economia, recebo um monte de comentários me chamando de burro, ignorante. Posso até ser, mas não me furto a comentar algumas coisas que têm me deixado perplexo nos últimos dias. Vivemos numa economia de livre mercado. O consumidor tem liberdade – induzida – de escolher. O mercado se auto-regula, no sentido de que a lei da oferta-e-procura determina os preços e a competência individual é que nos confere oportunidades de trabalho, por exemplo. Aos milhares de jovens que sobram, todo ano, a explicação, ou justificativa, é de que eles não são bons, ou preparados, que chegue. Entendo tudo isso – posso não aceitar, não achar ético, mas não sou tão burro a ponto de perceber que não é assim que funciona o admirável mundo novo –, mas fico pasmo de ver como o Estado agora tem permissão de intervir no mercado para nos ‘salvar’, injetando centenas de bilhões de dólares na economia. A intervenção, aqui, é global, e portanto pode. Não são o Fidel nem o Chavez lá nos seus paisinhos. É o George W. Bush nos salvando e eu não sei por quê, mas me lembro do Julinho da Adelaide, aliás, Chico Buarque – ‘Chama o ladrao…’ Mesmo achando os métodos do cara discutíveis, achei impressionante as cenas de ‘Fahrenheit 451’ em que Michael Moore invade uma daquelas convenções republicanas para flagrar o emissário de Bush pedindo apoio para a Guerra do Iraque e prometendo bilhões de dólares para aquela gente, na operação de reconstrução do país, após a deposição de Hussein. É o momento do filme que não tem efeito nenhum. A câmera fica ali paradinha, registrando a fala do emissário, para que ninguém diga que esteja sendo truncada (ou manipulada). Ninguém fala ali em acabar com a ditadura de Hussein, de estabelecer a democracia no Iraque. O assunto é negócios. Como aquelas pessoas, que já são as mais ricas do mundo, podem enriquecer ainda mais. Na crise de 1929, o próprio cinema mostrou ex-milionários saltando de seus prédios e se esborrachando no chão, ao perder tudo. A crise era o nivelador social no desfecho de ‘Clamor do Sexo’, de Elia Kazan. O pai de Warren Beatty, que impedia o romance do filho com a pobretona Natalie Wood, vira suco no chão, lembram-se? No filme de Kazan, o novelamento é tardio. O tempo passou, o esplendor na relva, do poema de Woodsworth que lhe serve de epígrafe – ‘Splendor in the Grass’ é o título original -, feneceu e nada trará de volta o ardor juvenil dos amantes. Era lindo, e era triste. Sei não, mas nessas economias informatizadas, não consigo ver os capitalistas arruinados saltando pelas janelas. Não estou pedindo que façam isso, estou constatando. Foram ‘salvos’, ou fomos nós?, por tio Bush. O que me parece é que essas crises, sucessivas, têm exposto a fragilidade do sistema financeiro mundial. A propriedade é privada, o lucro é individual, mas o prejuízo, quando muito grande, tem de ser legitimamente socializado,é isso, então? Andamos na mão de Deus e no pé do Diabo. Só duvido que não tenha gente ganhando nessa história toda. O texto parava aqui. Havia redigido no sábado, mas hesitava se postava ou não. Estou postando, pronto para as pauladas que vou receber.