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Cultura » ‘Entre a fama e a loucura’

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Luiz Carlos Merten

08 Dezembro 2010 | 15h57

Vou entupir vocês de posts, pelo menos para dar uma geral de que estou voltando. Havia um monte de peças em Nova York que adoraria ter visto, mas nenhuma me tentou mais do que a remontagem de ‘Driving Miss Daisy’ com Vanessa Redgrave e James Earl Jones nos papéis que Jessica Tandy e Morgan Freeman criaram/imortalizaram no cinema. A crítica toda está aos pés de Vanessa. O crítico do ‘The New York Times’, acho que foi ele, diz que no teatro não existe a versão definitiva. Vanessa supera tudo o que ele já viu. Pois bem – queria ver ‘Miss Daisy’, mas não vi. Porque na minha noite disponível descobri que no Film Forum, o reduto independente de Nova York, poderia ver dois filmes, o documentário de Hiroshi Teshigahara sobre Antonio Gaudí, e – principalmente – ‘Puzzle of a Downful Child’, apresentado pelo próprio diretor Jerry Schatzeberg. Após a projeção, haveria/houve debaste com ele. Cheguei ao cinema – que exibia em outra sala uma programação em homenagem a Jean-Luc Godard e a Claude Chabrol – e estava lotado. Chorei minhas pitangas – ainda bem que não estava sozinho, havia uma senhora que pedia, por favor, para entrar – e terminaram providenciando duas cadeiras para a gente. O filme passou no Brasil como ‘Entre a Fama e a Loucura’. Não conhecia, mas o que me interessavba era o encontro do diretor com o público. ‘Puzzle’ tem um lado meio ‘Black Swan’. Faye Dunaway faz uma top, modelo fotográfica – o próprio Shatzberg foi fotógrafo de moda, antes de ser diretor -, que atinge o topo, mas é meio suicida, sua pior inimiga, e entra em colapso. Achei o filme datado, muito anos 1970, mas a memória do Schatzberg sobre o cinema e a Nova York da época valeram a viagem (e ter perdido ‘Miss Daisy’). Ele contou como conheceu e bancou o jovem Al Pacino em Os Viciados’ (Panic in Needle Park), falou da Palma de Ouro (que ganhou por ‘O Espantalho’). Enfim, tinha histórias para contar. E, independentemente de ter gostado ou não do filme, Faye Dunaway era um negócio muiito sério. Depois, ela fez muita plástica e abusou do botox. Lembro-me de Marc Forster, dizendo que o estúdio a queria em ‘Em Busca da Terra do Nunca’ e ele estava entusiasmado pela possibilidade de trabalhar com uma atriz que fazia parte do seu imaginário (por ‘Bonnie & Clyde’), mas aí conheceu Faye e ela não tinha mais expressão, de tão esticada que estava a pele. Ele preferiu contratar Julie Christie para o papel, e foi uma sábia decisão. Faye era uma atriz tão nuançada, e tão sensual. O movimento das narinas, dos lábios. Transmitia intensidade. Eu a via no filme de Schatzberg e pensava comigo mesmo – essa mulher se acabou. Acabou consigo mesmo. Querendo preservar a juventude, arruinou-se. Ah, vida…