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Luiz Carlos Merten

10 Junho 2008 | 14h33

Grande escritor, o gaúcho Josué Guimarães – meu conterrâneo – creditava ao longo exercício do jornalismo a sua capacidade de ser econômico com as palavras. Embora ainda morasse em Porto Alegre na fase áurea do Josué escritor e fosse admirador de seus livros, nunca tive oportunidade de cruzar com ele – bem, cruzar, talvez, mas falar nunca. No Rio Grande, ele sempre foi considerado herdeiro de Érico Veríssimo, talvez por haver estreado com uma saga, uma trilogia, ‘A Ferro e Fogo’, que seguia a vertente de Érico em ‘O Tempo e o Vento’. É uma tradição das letras gaúchas, e eu imagino que exista alguma explicação que não saberia dar, mas além de Érico e Josué, Luiz Antônio Assis Brasil também escreve (ou escreveu) esses romances cíclicos, caudalosos como rios, contando sagas familiares. Gosto muito de ‘Tempo de Solidão’, o primeiro volume de ‘A Ferro e Fogo’, e de ‘Tambores Silenciosos’, mas há um pequeno (menos de cem páginas) grande livro de Josué Guimarães que me encanta de maneira especial. ‘Enquanto a Noite não Chega’ versa sobre este casal de velhos que conversa enquanto espera a noite (a morte) ou o filho que partiu para uma peleja. Sempre fiz uma ponte entre o livro de Josué e ‘Ninguém Escreve ao Coronel’, de Gabriel García Márquez, que trata de temas próximos (a solidão, o abandono). ‘Enquanto a Noite não Chega’ tem me assombrado nos últimos anos. Quando fui jurado da Caméra d’Or, em Cannes, quebrei o protocolo e fui falar com a diretora paraguaia Paz Encina, de um filme que amei, ‘Hamaca Paraguaia’. Queria saber se ela conhecia o livro de Josué porque o filme dela tem uma construção parecida – o casal de velhos que conversa sentado, com aquela plantação de fundo, enquanto a noite vai chegando. Falam sobre o tempo,a morte, o filho que partiu para a guerra e eles sentem que ele morreu, mas não possuem um cadáver para fazer seu luto. Amei o filme de Paz Encina e fiz de tudo para convencer os irmãos Dardenne de que ela, ou o catalão Alberto Serra, de ‘Honor de Caballeria’, livremente adaptado de ‘Dom Quixote’, ou o mexicano Francisco Vargas, de ‘El Violín’, mereciam mais o prêmio que, afinal, foi atribuido ao filme romeno ‘A Leste de Bucareste’, de Christian Parumboiu. Logo em seguida, meu amigo e editor do ‘Caderno 2’, Dib Carneiro Neto, autor – premiado com o Shell – de ‘Salmo 91’, escreveu outra peça intitulada ‘Paraíso’, também sobre um casal de velhos, numa longa conversa, num lugar que não é identificado e pode ser uma porta de cemitério, ou a do paraíso prometido pelo título. Dib também não conhecia o livro de Josué Guimarães, que foi reeditado como pocket pela L&PM e pode ser adquirido baratinho na Livraria Cultura. Ontem recebi um telefonema de Porto. Beto Souza iniciou em São Gabriel as filmagens de ‘Enquanto a Noite não Chega’. Nos casos do filme de Paz Encina e da peça de Dib Carneiro, pode ter sido mera coincidência, mas agora é o texto glorioso de Josué que está chegando ao cinema, pelo co-diretor de ‘Neto Perde Sua Alma’ e diretor de ‘A Batalha dos Aflitos’, o documentário sobre a virada do Grêmio no Recife, contra o Sport (amanhã, casualmente, tem outra batalha dos aflitos, mas esta seria outra história). Quero acreditar que o Beto vai fazer o filme que o livro do Josué merece, da mesma forma que gostaria de acreditar que este post vai deixar vocês – alguns, pelo menos – com o mínimo de vontade de conhecer a obra do escritor gaúcho, caso não a conheçam, e em especial ‘Enquanto a Noite não Chega’.