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Cultura » Ennio Morricone cantou para mim

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Luiz Carlos Merten

06 Maio 2007 | 14h33

Voltei, mas de onde mesmo? Quinta foi um dia meio infernal no jornal e sexta de manhã fui para o Rio, para correr atrás de Ennio Morricone, que ontem à noite regeu aquele concerto maravilhoso no Música em Cena, evento organizado pela Cinnamon, da Lia Vissoto, com a SM Comunicação. Lia já vinha trabalhando desde meados do ano passado, mas acho que só me abriu o que estava fazendo em janeiro. Dei força, claro, e não duvidava que ela fosse conseguir, mas só ontem, naquele Teatro Municipal lotado, no Rio, dei-me conta da grandiosidade do evento, e do que teve ter sido levá-lo a cabo. Espero não ser melodramático (nem puxa-saco, o que é pior), mas quando abracei a Lia, no fim, agradeci pela coragem dela de se lançar no desconhecido. Ela poderia ter quebrado a cara, mas conseguiu – e o Música em Cena resultou no prazer de todo aquele público imenso que se emocionou, aplaudiu ea chorou com o Ennio e sua grande arte. Espero ter visto nascer um evento tão duradouro quanto a Mostra de São Paulo ou o Festival de Rio – e espero que, no ano que vem, no 2º Música em Cena, Lia consiga patrocínio (e também resolver os problemas de logística…) para trazê-lo a São Paulo. A cidade merece ouvir (e não apenas ver…) cinema. Mas, enfim, corri feito louco, mas não foi só isso que me levou a deixar de postar nestes dois ou três dias. Já me disseram que transformei o blog num diário, mas quando escrevo não é para mim – só para mim – e sim, pelo desejo de compartilhar. Se não existe troca, fica sem graça. Enfim, vocês vão me achar metido, mas não posso deixar de contar uma coisa. Na sexta à tarde, ia assistir ao ensaio do ‘Maestro’ (no sentido de mestre), marcado para 4 da tarde. Cheguei e ele já havia encerrado! Quase morri – houve outro, no sábado, mas eu ainda não sabia. Foi quando me informaram de que ele estava saindo para visitar o Pão de Açúcar. Integrei-me ao grupo e lá fui de penetra, no meio da entourage (uso no feminino, mas como é de origem francesa e termina em age tem de ser masculino. Só não me soa bem.) Ainda bem que arranjei uma aliada em Patricia Giancotti, antropóloga (que pesquisou no Brasil. mais exatamente na Bahia, sua dissertação sobre as mulheres no candomblé). Patricia era a intérprete do Ennio no Brasil. Me encorajou a fazer algumas perguntas que, ela achava, fugiam ao que ele já estava cansado de responder. Foi aí que contestei aquela coisa de ele ser só associado a Sergio Leone, como Nino Rota é associado preferencialmente a Federico Fellini (embora sua produção para Luchino Visconti, meu ídolo, seja igualmente importante, pelo menos para mim). A resposta que EM me deu está no Caderno 2 de amanhã, não vou furar. Mas uma coisa eu tenho de antecipar. Estávamos só ele e eu sentados num banco, lá no alto do Morro da Urca. Lauro Liboa Garcia, meu colega do Estado, e a Mona, da Cinnamon, acompanhavam de longe. E viram quando Morricone cantarolou para mim, a título de ilustração, um trecho de Amarcord. Ele cantava e uma coisa passava pela minha cabeça. Sou cabeça dura e já virou meu marketing pessoal. Não uso celular, não faço anotações nem gravo as entrevistas. Virou uma marca, da qual não posso (nem quero) me livrar. Mas, naquele momento, daria tudo por um gravador. Colocaria no blog, no portal do Estado, sei lá onde mais. Lauro me confessou que tinha ficado emocionado. Nunca esteve tão perto de um mito. E o EM cantava para mim um tema de Nino Rota para Fellini! A vida feita é feita de emoções. Pequenas ou grandes, devemos estar preparados para desfrutá-las. O título do post é umna homenagem que agora pintou na minha cabeça. Lembram-se da frase – ‘El sol vino a la noche y me cantó’. Steven Spielberg, Encontros Imediatos do Terceiro Grau. Tive ali meu encontro imediato, mas EM não era um ET. Sua fama é de irascível, mas o que eu conheci ali, por um breve momento, foi a face humana de um mito.