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Enfim, um musical brasileiro. E do Rosa!

Luiz Carlos Merten

09 Setembro 2007 | 11h22

Vi Os Produtores, o filme antigo, que estreou no Brasil como Primavera para Hitler, e depois assisti ao musical na Broadway e à sua versão para cinema. Confesso que não estou muito tentado a (re)ver Miss Saigon, que já vi em Nova York, há muitos anos, mas quero conferir a versão nacional de Os Produtores. Começo dizendo isso porque não sei se Vladimir Brichta fez a escolha certa. Pode ser bom, comercialmente, para sua carreira, fazer Os Produtores ao lado de Miguel Falabella e Juliana Paes, mas eu duvido que, do ponto de vista artístico, Os Produtores consiga ser melhor que o outro musical, que ele abandonou. Fui ver ontem A Hora e a Vez de Augusto Matraga no Sesc Villanova. Jackson Costa, este sim, deve estar agradecendo aos céus e a Vladimir Brichta, porque a saída do ator do elenco da peça, para ir fazer Os Produtores, fez com que esse papel maravilhoso lhe caísse como uma luva. Amo o texto de João Guimarães Rosa, que é uma espécied de Bíblia para mim. É o meu rosa preferido. Nos momentos de dificuldades, e foram muitos ao longo da minha vida – quem não tem? –, usava sempre como combustível uma frase do Rosa. Não, não é a do padre, dizendo que todo mundo tem sempre a sua hora e a sua vez, mas a outra, do próprio Nhô Augusto, quando ele repete ‘Jesus manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao vosso’. Acho aquilo o máximo. É a contraposição perfeita a outra fase do próprio Nhô Augusto, quando ele diz que entra no céu nem que seja a porrete. Achei a adaptação muito legal, a montagem linda, a música… Qual é o adjetivo? Maravilhosa? Geraldo Vandré fez a música na adaptação para cinema de Roberto Santos e eu confesso que ontem, o tempo todo, estava apreensivo – a cantiga brava de Vandré é tão forte, seu cipó de arueira tão resistente, que eu ficava pensando. Como reiventar ‘o terreiro lá de casa/não se varre com vassoura/varre com ponta de sabre/bala de metralhadora’? Reencontrei Rosa no palco do Sesc Villanova, achei Jackson Costa bom demais, mas encontrei também outra coisa que nunca tinha me passado pela cabeça. O conflito interno, entre bem e mal, em Augusto, quando ele vai virar Matraga, a sua obsessão por entrar no céu, mesmo que no porrete e a sua ‘reeducação’ do mal – pitando seu cigarrinho, redescobrindo a mulher – me lembraram, uma coisa totalmente subjetiva, reconheço, a reeducação de Alex (Malcolm McDowell) em A Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Gostei muito de A Hora e a Vez de Augusto Matraga. Um musical brasileiro. É uma alternativa diferente para quem acredita que a Broadway é aqui, mas vale a pena, se a alma não é pequena.