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Enfim, Cavalo Dinheiro!

Luiz Carlos Merten

08 Maio 2015 | 10h25

RECIFE – Estou siderado. Assisti, ontem, finalmente, ao Pedro Costa – Cavalo Dinheiro. Havia tentado, sem êxito, ver o filme no Festival do Rio do ano passado e meu colega Luiz Zanin Oricchio me informa que ele concorre ao grande prêmio do cinema ibero-americano. Foi o filme pelo qual valeu a pena vir ao Cine PE de 2015, embora tenha gostado, também, em graus variados, de Permanência, de Leonardo Lacca; de O Vendedor de Passados, de Lula Buarque de Hollanda; e do documentário de curta-metragem Bajado, de Marcelo Pinheiro. Tenho reclamado muito nos debates, e ontem no blog, do som na sala São Luiz, onde o festival está ocorrendo, no centro do Recife. A organização defende-se que instalou o melhor sistema digital possível, os realizadores – alguns – assumem que captaram som e imagem em condições precárias, como parte da própria estética. Pode ser, arrisco, que o sistema sonoro não seja adequado para uma sala tradicional, retangular. Pode ser que os diretores queiram realmente estourar o som, como nos informa o técnico, e nesse caso depõem contra seus filmes. O que sei é que o tratamento sonoro de Cavalo Dinheiro é impecável e o filme, sussurrado como é, e falado em português cabo-verdiano, foi perfeitamente audível. Tinha legendas, mas eu tentei e consegui, na maior parte do tempo, ficar ligado só na musicalidade dos diálogos minimalistas, de vez em quando baixando os olhos para a legenda, para conferir se havia entendido. Com Juventude em Marcha, Pedro Costa dera prosseguimento a Ossos e O Quarto de Wanda, fechando o que parecia uma trilogia sobre Ventura e os quarteirões pobres de Fontainhas, onde se concentram os cabo-verdianos de Lisboa. Ventura já vinha dos curtas do autor, um personagem opaco, aqui confrontado com a própria morte e os fantasmas do passado. ‘Estive em muitos hospitais’, ele diz num determinado momento e os longos corredores pelos quais anda, as camas e elevadores são tão díspares que sugerem que o espaço de Cavalo Dinheiro é uma soma dos demais – imaginário? Narrado em quadros, com rigoroso controle da composição do plano e da luz e marcado por forte musicalidade, Cavalo Dinheiro dá a impressão de oscilar entre o abstrato e o concreto, numa terra de ninguém – esse fantasmagórico purgatório (ou limbo) em que se encontra Ventura. É curioso como no fundo, e por vias bem diferentes, isso aproxima Pedro Costa de seu autor preferido, Jacques Tourneur, mestre do noir e que se exercitou no western e até no melodrama, sempre com acentos trágicos. Um tem muita história, ação. O outro, desencarna a própria ficção. Não sei o júri do Cine PE vai outorgar seu prêmio a Cavalo Dinheiro. O que posso apostar é que ele vai ganhar o prêmio da crítica na cerimônia dessa noite, até porque, a rigor, e mesmo tendo gostado de outros concorrentes, não há nenhum com esse grau de riqueza e exigência.