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Encontros ao Acaso

Luiz Carlos Merten

10 Setembro 2007 | 09h01

Fui rever ontem Encontros ao Acaso, que é bem simpático. O filme realizado pela atriz de Procura-se Amy, Joey Lauren Adams, é uma comédia romântica diferente das outras, sem um final propriamente feliz. A heroína é essa mulher autodestrutiva, incapaz de se ligar em relacionamentos sérios. Encontra um cara doce, que é o reverso dela – ele quer compromisso. É curioso que uma mulher tenha feito este filme que, num certo sentido, inverte os papéis tradicionais e termina em suspense, como na vida – quem pode garantir que Ashley Judd vai se dar bem? Como diz a canção, ela é um carvão que sonha ser diamante. Joey Lauren Adams filma a América interiorana, preconceituosa e meio em ruínas. Vai virar? Existem planos da cidade – casas malcuidadas na beira da estrada que poderiam estar num daqueles road-movies sobre fracassados dos anos 60. Inusitado, no mínimo, e nem de longe conforme ao que se espera do país mais rico do mundo. Toda aquela gente bêbada, infeliz, cantando hosanas ao Senhor em cultos que qualquer um vai inventando. Mas quero falar é de Ashley Judd. Gosto dela, que tenho visto em filmes tão distintos quanto Risco Duplo, A Marca, Possuídos e, agora, Encontros ao Acaso. É uma atriz que pode ser fina – a socialite mulher de Cole Porter em De-Lovely –, mas os diretores têm essa fantasia sobre Ashley e a colocam em papéis de mulher promíscua, relaxada (no sentido de tramp, vagabunda). Revendo ontem o filme tive uma sensação muito curiosa. Gosto da Ashley bêbada, que não consegue se comunicar, mas não gostei do choro dela dentro da caminhonete. Ficou feia. Me surpreendi lembrando uma hiastória que o Elia Kazan conta no livro com a entrevista que deu a Michel Ciment. Já com prestígio como diretor de teatro, Kazan chegou a Hollywood, contratado pela Fox, e foi fazer seus primeiros filmes. No segundo, Mar Verde (Sea of Grass, de 1947, com Spencer Tracy e Katharine Hepburn), ele se emocionou no set com as lágrimas da atriz. O poderoso Darryl Zanuck viu os rushes e não gostou. Mandou refilmar. Kazan ficou indignado, quis argumentar. Zanuck foi duro – ‘Meu jovem, você tem muito que aprender. As lágrimas dela não estão caindo direito. Fica feia.’ Lá se foi Kazan refilmar, e agora preocupado com as lágrimas de Katharine Hepburn. Como ele disse a Ciment, aprendeu muito – que Katharine chorava por qualquer coisa e difícil era conter as lágrimas que a estereotipavam como atriz. É uma outra maneira de enfocar um dos maiores ícones da representação do cinema. Kazan nunca mais quis trabalhar com Kate. Aprendeu ali tudo o que precisava para dirigir astros e estrelas. O que isso tem a ver com Encontros ao Acaso? Nada, realmente, ou quem sabe tudo. O problema de Ashley quando chora não são as lágrimas. Para dizer a verdade, ela é o reverso de Kate. As lágrimas não vêm e Ashley faz careta de choro, sem passar o choro real. Que coisa!