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Luiz Carlos Merten

10 Fevereiro 2012 | 17h08

BERLIM – Sorry se eu induzi vocês a pensarem errado, mas quando digitava ‘Tão Perto e tão Longe’, ou o inverso, dizia comigo mesmo que não podia ser porque era um filme de Wim Wenders. O longa de Stephen Daldry é ‘Tão Forte e tão Perto’ e a Warner antecipou a estreia, que seria no começo de março, para 24 de fevereiro, dois dias antes do Oscar, de certo para aproveitar o fato de que o filme tem indicações importantes. Desculpem-me, de novo, por ter andado meio fora do ar, do blog, desde a postagem anterior, pouco antes de assistir a ‘Adeus à Rainha’. Gostei do filme de Benoit Jacquot e hoje gostei mais ainda, depois de entrevistar o diretor e suas estrelas (Léa Seydoux e Diane Kruger). O filme é sobre os três ou quatro últimos dias de Maria Antonieta (e Luís 16) no poder, vistos pelo ângulo da leitora da rainha (Léa). Gostei demais do partido estético, a câmera transformada em personagem e virando a sombra de Léa. Quando ela não se mexe, a câmera fica parada. Quando ela caminha, a câmera segue junto. Quando corre, a vertigem é inebriante. Observei isso para Benoit e ele me disse que era absolutamente que a câmera fosse ‘a’ personagem destes últimos dias da realeza de França, antes da República. Da mesma forma, o filme se constroi numa série de cenas que mostram Léa acordando ou indo dormir, e isso reveste ‘O Adeus à Rainha’ de um caráter meio de sonho. Aí, o encontro com Benoit Jacquot virou realmente uma conversa e, embora formássemos um grupo pequeno, sorry galera, mas ele passou a se dirigir a mim, porque disse que era a essência do que queria fazer, levar o espectador a um estado de sonhar acordado, com a protagonista. Fiquei feliz da vida com a entrevista, porque, no fundo, sempre havia querido me encontrar com Jacquot, assim como em Cannes, no ano passado, realizei outro sonho – o de entrevistar Alain Cavalier. Um festival de cinema nunca é para mim só o lugar de assistir a filmes em primeira mão. Também é feito desses encontros, por mais breves que sejam. Jacquot desnuda duas das atrizes do filme, Léa e Virginie Ledoyen. Pelo corpo dessa, a câmera passeia. Ela já foi mulher do diretor. Jacquot, que ama as mulheres – as atrizes -, diz que nunca encontrou uma mulher, por mais jovem e bela que fosse e que estivesse absolutamente satisfeita com seu corpo. E ele disse uma coisa na qual creio. As mulheres precisam se contemplar nos olhos do outro. Necessitam dessa aprovação mais que os homens. Meus encontros de Berlim. Foi ótimo falar com Stephen Daldry e vê-lo comentar uma coisa que sempre observei nos filmes dele -terminam sempre por longos diálogos. Mas o máximo, no que se refere a ‘Tão Forte e tão Perto’, foi ter entrevistado Max Von Sydow. Vê-lo falar de Ingmar Bergman foi maravilhoso. Ele começou tergiversando. Como reduzir a alguns minutos de conversa a relação, pessoal e artística, de uma vida inteira? Era impossível, mas aí começou a falar sobre a importância de Bergman para ele, a confiança, os papeis, no cinema como no teatro. Pelamor de Deus! Agora, infelizmente, tenho de parar, sob pena de perder a sessão da versão reataurada de ‘Outubro’, de Sergei M. Eisenstein. E não falei do filme de Angelina Jolie, ‘In the Land of Blood and Honey’, nem do turco alemão que abriu o Panorama, ‘Kuma’. Vamos ter tempo. O festival talvez nem venha a ser grande, mas a curadoria já começa a se desenhar. O mundo em crise de 2012 reflete-se nas telas da Berlinale.