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Luiz Carlos Merten

21 Agosto 2008 | 12h02

Venho ameaçando há vários dias falar sobre ‘Encontro em Ferrara’, o curta de Júlio Bressane sobre Michelangelo Antonioni. Feito em digital, teve uma sessão especial em Gramado, que este ano homenageava o diretor. Sei de coleguinhas que se irritaram com a ‘arrogância’ de Bressane e suas críticas ao festival, que foram consideradas injustas em relação à curadoria anterior. De minha parte, encantei-me com o Bressane e o achei um grande contador de histórias, absolutamente sedutor. Até pensei com meus botões – este cara não é um narrador (clássico) no cinema porque prefere contar suas histórias na vida. Nos filmes, ele faz outra coisa. Se o que conta não é necessariamente verdadeiro – existem outras versões para o fato -, lembrei-me de John Ford e de ‘Print the legend’, no admirável desfecho da obra-prima ‘O Homem Que Matou o Facínora’. Mas vamos ao curta. Bressane estava em Veneza, no ano passado – com ‘Cleópatra’ –, quando resolveu ir com amigos em peregrinação ao túmulo de Antonioni, que morrera poucos dias antes. Seu relato foi impressionante. Ele foi de trem para Ferrara. Chegou ao cemitério, encontrou o túmulo e disse que havia ali um cheiro, que era o do corpo em putrefação do grande cineasta. Bressane tinha grande respeito e admiração por Michelangelo. Tinha até uma atração física, porque achava Antonioni um homem sensual. Acrescentou que nunca rolaria nada porque Antonioni não era disso. O filme é muito simples, mas, dependendo do meu, do seu olhar, pode virar muito interessante. Bressane descontrói a arquitetura do túmulo por meio de planos que remetem à arquitetura dos filmes de Antonioni. E ele dissocia som e imagem, construindo uma espécie de cerimônia do adeus, como quem se despede do artista. De que maneira? Por meio de excertos sonoros que tirou dos filmes de Antonioni. Existem vários momentos de ruptura de casais nos filmes de Antonioni, várias despedidas ao longo da obra (e carreira) do diretor. Bressane selecionou as falas de três – ‘O Grito’, ‘O Deserto Vermelho’ e ‘O Passageiro Profissão: Repórter’. Muito particularmente, me encantei com a ruptura de Alida Valli e Steve Cochran (ele, dublado) em ‘O Grito’. Ela diz que está tudo acabado, admite que tem outro. Ele retruca, indignado e até um tanto violento – mas então a nossa história não significou nada? Ela diz que significou muito, até quatro meses atrás. É um diálogo maravilhoso, e a voz de Alida Valli o torna ainda mais intenso, mas Bressane diz que escolheu a fala por seu recorte melodramático, que seria, ou é, uma homenagem de Antonioni às fotonovelas. Vale lembrar que Fellini começou como roteirista de fotonovelas e fez seu primeiro filme solo, ‘Abismo de Um Sonho’ (Lo Sceicco Bianco), abordando este universo. Antonioni foi roteirista de ‘Abismo de Um Sonho’, lembram-se? Saí de ‘Encontro em Ferrara’ correndo, depois de perguntar a Bressane sobre o por que de sua escolha daquele diálogo de ‘O Grito’, e me mandei para o Palácio dos Festivais, para assistir ao último programa da mostra competitiva de curtas. ‘Booker Pittman’, de Rodrigo Grota, estava no programa. Rodrigo usa fragmentos de músicas para contar uma história (sonora) do artista, sem se prender necessariamente aos aspectos mais biográficos de sua vida. Terminei fazendo, na minha cabeça, uma ponte com Bressane, até porque Rodrigo Grota investiga linguagens e o imaginário de artistas que existiram (Booker) ou não (Satori Uso), de forma a revelar o próprio imaginário. Fiquei em êxtase e cravei, ali, que ‘Booker Pittman’ era, para mim, o melhor curta de Gramado em 2008. ‘Booker’ integra a Mostra Brasil do Festival Internacional de Curtas de São Paulo, que começa amanhã, com itinerâncias no Rio, no Recife e em duas cidades do interior de São Paulo (Jundiaí e São Carlos). Repassei a programação e não achei ‘Encontro em Ferrara’. Enfim, não se pode ter tudo, mesmo que seja numa programação de quase 400 títulos.