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Luiz Carlos Merten

26 Setembro 2009 | 13h01

RIO DE JANEIRO – Tentei postar de manhã mais cedo, mas não encontrei nenhuma lan house aqui no centro e não queria ir à sucursal. Às 10h45, havia um evento importante do festival, o encontro de Jeanne Moreau com o público, mediado por Cacá Diegues, no Cine Odeon. Durou cerca de uma hora e foi maravilhoso, mas Jeanne, de alguma forma, ficou meio exasperada. A ideia é que ela se encontrasse com estudantes de cinema, mas as primeiras perguntas não vieram de jovens e ela terminou por dizer que estava ali para falar aux étudiants. Mais tarde, talvez, se houvesse tempo… O começo não poderia ter sido melhor. Cacá citou Milton Nascimento, num texto sobre a atriz, que saiu hoje num jornal aqui do Rio (mas ele não fez o comercial, não disse qual). Segundo Milton, Jeanne é única e Cacá acrescentou a essa característica o que talvez seja sua qualidade – ela é também misteriosa. Jeanne disse que todos, cada um de nós, somos ‘únicos’ e, quanto ao mistério… Ela é uma intérprete, o mistério quem opera é o próprio cinema. Quando jovem, Jeanne trazia talvez sua beleza para os papéis e a boa reputação que adquirira no teatro, mas foram os grandes diretores com quem trabalhou que lhe deram bagagem e fizeram dela a mulher e atriz que é. E, sim, ao fazer ‘Ascensor para o Cadafalso’, com Louis Malle, e, mais tarde, ‘Jules et Jim’ (Uma Mulher para Dois), de Fraçois Truffaut, ela sabia que participava de algo importante. Cacá, lá pelas tantas, interrompeu Jeanne para dizer que, na plateia, estava uma grande estrela, um mito do cinema brasileiro, Odete Lara. Cacá dirigiu Jeanne em ‘Joanna Francesa’ e Odete em ‘Os Herdeiros’. Odete vive hoje retirada, desde que abraçou o budismo, mas ela fez sua declaração de amor a Jeanne, dizendo de sua admiração profunda (e que a tirou de casa para estar próxima de um objeto de adoração). Jeanne agradeceu, chamando-a de ‘Madame’ (ela é mademoiselle, toujours) e disse que é esse carinho, que ela encontra em homens e mulheres em todo o mundo, que a alimenta. Confesso que, em mais de umn momento, ela dizia com tanta simplicidade coisas densas – e belas – que me deu vontade de chorar. Jeanne disse que foi seu privilégio ter esses encontros notáveis com grandes artistas que a moldaram. O meu tem sido participar de momentos assim e, depois, transmiti-los a vocês, o que acho que faço com razoável competência. Uma colega, ontem, na sucursal do ‘Estado’, me disse de sua emoção com o relato de minha visita ao estúdio da Disney, outros (ainda) me falam de Monument Valley. Leiam minha entrevista com Mademoiselle Moreau hoje, no ‘Caderno 2’. Amanhã, finalmente, 36 anos depois, Jeanne vai ver ‘Joanna Francesa’, que nunca viu. E ela deu uma informação que não está na minha matéria de hoje no jornal. Havia deixado para o fim a cantora, que ela também é. Jeanne comentou sobre cuidados com a voz, Chico Buarque, Caetano, mas hoje ela acrescentou que tem planos de voltar a cantar em 2010, um projeto sobre letras de Jean Genet.