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Luiz Carlos Merten

16 Julho 2012 | 16h11

Tive um fim de semana intenso no teatro. Fui ver na sexta ‘Isso te Interessa?’, que me havia sido coberto de elogios. Sorry, mas respondendo à pergunta do título não consegui me interessar, embora tenha gostado muito da trilha – que me fez lembrar aquele meu ‘parente’, o Mertens (no plural), que assina as trilhas do Marcelo Masagão. A propósito, onde anda o autor de ‘Nós Que Aqui Estamos’ e ‘1,99’? Será que só eu sinto falta do seu cinema ensaístico e inteligente? Alô-ô? De volta ao ‘Isso te Interessa?’, confesso que a título interno, e entre amigos, sacaneei essa coisa de todo mundo nu em cena, mas foi um aspecto que achei interessante no espetáculo. Nunca vi coisa menos erotizada. Passados, sei lá, 60 segundos para conferir o material dos dois casais em cena (é inevitável), desliguei-me, como imagino toda a plateia, de que estavam nus e tentei me concentrar na ‘dramaturgia’, mas foi justamente ela, ou sua falta…, que me derrubou. Assim como o nu, um minuto de ‘o pai disse’, ‘a mãe disse’, ‘o filho disse’, ‘a filha disse’ teriam sido suficientes. Aos 45 minutos do primeiro tempo (o único), eu já estava pedindo água. Ah, sim, cinófilo de coleirinha, adorei a caracterização dos cachorros, com os atores sacudindo o pé para expressar o rabinho em festa dos amados quatro-patas. Deixei de ver ‘Camille e Rodin’ no sábado porque fui ver o ‘Augustas’ – e quebrei a cara, como contei no post anterior –, mas ontem vi ‘A Falecida’ no projeto ‘Nelson Rodrigues 100 anos’ do Sesi e gostei da espetacularização proposta pelo diretor Marco Antônio Braz, que transformou o palco do teatro da Fiesp na arquibancada do estádio onde se digladiavam as torcidas do Vasco e do Fluminense. Espetacular, pero sin perder el intimismo. Achei corajoso da parte de Maria Luiza Menonça encarar uma personagem que sua sogra, Fernanda Montenegro – ela está casada com Cláudio Torres –, interpretou de uma forma que parecia tão definitiva (no filme de Leon Hirszman). Fiquei com vontade de ver o outro Nelson, “O Boca de Ouro’, que integra o mesmo projeto, com Mário Ricca e o mesmo elenco de apoio da ‘Falecida’. Gostei particularmente de Rodrigo Fregnan como Tuninho, o marido, e de Alessandro Hernandez como o loucutor, que narra a tragédia suburbana como uma partida de futebol, e chofer, embora, no primeiro, me parecesse que o som estava muito alto. Nelson, 100 anos. A permanência de Nelson, a atualidade de Nelson. O cara era louco – o que é aquela fala da Zulmira atirando o Tuninho nos braços da outra e se regozijando com o câncer dela, que levou à extirpação do seio? E o Pimentel (Léo Stefanini), contando, para o marido! (mas sem saber), como foi comer a Zulmira no banheiro feminino? Sem implicância nenhuma, no programa de apresentação de ‘Isso te Interessa?’, o diretor Márcio Abreu, vendendo seu peixe, diz que o espetáculo (e sua companhia…) exploram possibilidades dramatúrgicas para expandir a presença do ator e a percepção do público. Legal!, mas acho que expandir a presença do ator é o que faz quase todo espetáculo de teatro – menos as montagens de Beckett – e eu senti essa expansão muito mais no Nelson Rodrigues, mas, enfim, não sou crítico de teatro para tentar ensinar os coleguinhas a rezarem missa.

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