Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Emmanuelle Béart

Cultura

Luiz Carlos Merten

01 Maio 2007 | 15h55

Recomendo a vocês que comprem a Première francesa de março, à venda nas bancas da Av. Paulista (e na da esquina da São Luiz com a Ipiranga), só para ler a entrevista de Emmanuelle Béart – e a revista ainda tem o material exclusivo sobre os artistas face à política, na França em período eleitoral. Emmanuelle é uma deusa, mas complicada. Entrevistei-a, quando veio ao Brasil, anos atrás, e nunca vi mulher mais travada. Projetava uma imagem de antipatia. Digamos que parte do problema era meu, que não consegui me fazer confiável. Teria sido melhor ter ficado calado, só olhando para Emmanuelle, mas eu fiquei ali insistindo, tentando arrancar dela o que Emmanuelle não estava disposta a dar. O segredo de uma entrevista, qualquer entrevista, é estabelecer uma relação de confiança com o entrevistado, para que ele (ou ela) se sinta em condições de falar. Como isso não ocorreu naquele dia, e eu não queria ficar dizendo frivolidades, criou-se um constrangimento para os dois. Na entrevista de Première, Emmanuelle diz que o problema básico é entre ela e sua imagem, ela e como os outros a vêem. Emmanuelle admite uma coisa que poucos atores confessam. Ela usa o glamour do cinema como uma máscara. Mas o glamour, diz, não é ela. É apenas uma maneira de se esconder. E mais forte – ‘Je ne sais pas comment me montrer en dehors de mes films’ (Não sei como me mostrar fora de meus filmes). Prosseguindo com o que parece uma terapia, acrescenta que são pouquíssimos os filmes nos quais, ou dos quais, se sente 100% segura. São assinados sempre pelos mesmos diretores – Techiné, Sautet, Rivette. Vou citar alguns – J’Embrasse Pas, Um Coração no Inverno, Minha Secretária e A Bela Intrigante. Ela conta uma coisa muito curiosa sobre Sautet. Ele percebeu que, para desnudar seu interior diante da câmera, precisava escondê-la de si mesma. Nenhum outro diretor cobriu tanto, com tantas roupas, aquelas formas. Emmanuelle abre tudo – sofreu de síndrome de pânico e durante um ano foi incapaz de sair à rua sozinha. Admite – é grave quando isso ocorre. Foi preciso se reeducar. Ah, Emmanuelle, tão linda, tão talentosa. Aguarde por ela no novo Techiné, Les Témoins, que vi em Berlim, em fevereiro. Tão neurótica. Talvez Emmanuelle Béart seja a atriz intensa que é por causa disso, mas a mulher sofre demais. E isso é triste.