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Luiz Carlos Merten

26 Maio 2007 | 11h08

CANNES – Assisti de manhã ao filme de Emir Kusturica Promise Me This. Mesmo com o risco de decepcionar leitores fiéis, tenho de dizer que foi uma das raras sessões que tive vontade de abandonar. Tem gente que acha Kusturica o máximo e eu até compartilho dessa opinião no espaço de um filme, Vida Cigana. Mas não tenho mais paciência para aquele tipo de surrealismo fabricado, com toda aquela música, e animais, e gente feia. Antes eu gostava, achava legal. Kusturica usava o feio para esculpir o belo. No limite, Vida Cigana, sua obra-prima, trata disso. Mas, à força de tanto se repetir, ele terminou por me cansar. Promise Me This foi comprado para o Brasil acho que pela Europa. Mostra este garoto que tem de cumprir três promessas feitas ao avô – comprar um ícone de São Nicolau, trazer-lhe uma lembrança da cidade grande e arranjar uma noiva. Kusturica fez a sua Saramandaia. Nas cenas iniciais, um sujeito é lançado de canhão num circo e passa o filme voando sobre tudo e todos. É curioso, mas este 60º festival está sendo muito marcado por dramas familiares. Tivemos filmes sobre irmãos, sobre pais e mães que enterram os filhos, sobre uma avó e seu neto (o belíssimo Alexandra, de Sokúrov) e um avô e seu neto (o filme de Kusturica). Não havia muita gente na coletiva. Tudo bem – o festival está desacelerando. Mas não era só isso. Há muita babação de ovo nessas coletivas. Quentin Tarantino deve estar achando que fez um marco do cinema com Death Proof. Kusturica idem, com Promise Me This. isso desestimula quem gostaria de discutir esses filmes com o mínimo de seriedade. São diferentes, em ambição e estilo, mas no fundo se parecem. Ambos os diretores já foram grandes. Terminaram se banalizando, embora exista, bem entendido, uma diferença de ambição. Kusturica ainda quer dar seu testemunho sobre temas humanitários e políticos. Encontrei Leon Cakoff no fim da sessão de Promise e ele me disse que quase tinha morrido de rir. Eu bem que tentei rir, mas não dava. Kusturica, trabalhando com temas de tragédia, não tem timing de comédia. Fica numa espécie de pastelão, criando cenas que já eram velhas no tempo do Gordo e o Magro, às quais acrescenta a música bombástica e o estilo overacted de interpretação de seus atores. Vocês poderão até gostar, quando o filme passar na Mostra. Eu passo adiante, sem pena.