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Luiz Carlos Merten

11 Agosto 2009 | 16h02

GRAMADO – Daqui a pouco começa a primeira sessão de curtas concorrentes do 37° Festival de Gramado. As projeções não param. Assisti ontem à tarde ao documentário ‘Em Quadros’, que me emocionou muito. O filme não é muito original nem criativo enquanto cinema. Explico – é um documentário tradicional, talvez até por opção do diretor Luiz Antônio Pillar, que sentiu que tinha personagens muito fortes e preferiu ser discretro, não chamando muito a atenção sobre si e preferindo dar voz a seus entrevistados (ou biografados). ‘Em Quadros’ se constrói em torno de quatro personalidades míticas do cinema brasileiro, quatro atores e atrizes afro-descendentes, negros que fizeram história no palco e na tela. Ruth de Souza, Léa Garcia, Milton Gonçalves e Zezé Motta. Todos recriam suas trajetórias e experiências, falam de racismo. Zezé Motta lembra de quando alisava cabelo e do choque que foi, nos EUA, excursionando com Augusto Boal, descobrir a própria identidade, a própria negritude. Léa Garcia conta como nunca teve vergonha da cor de sua pele, de ter ascendenbtes escravos, uma avó que foi doméstica. Nada disso a diminui, nem diminui os que a precederam. Diminui, talvez, a sociedade que foi racista e discriminadora. Léa diz essas coisas sem raiva nem agressividade. Elas vêm de dentro, deep inside. São constatações ao longo de uma história de vida, e arte, que é das mais ricas. Cacá Diegues, o mais negro dos nossos cineastas brancos – o mais branco dos cineastas negros brasileiros, mas isso é só uma frase de efeito -, conta que Léa foi uma de suas paixões de juventude, desde que a viu no palco, na peça mítica de Vinicius de Morais, ‘Orfeu do Carnaval’, nos anos 50. Léa estava em seu primeiro longa, ‘Ganga Zumba’, e voltou depois em ‘Orfeu Negro’ e ‘O Maior Amor do Mundo’. Tenho amor, mais até do que simplesmente respeito, por essas pessoas. Todos fazem parte das minhas experiências mais viscerais no cinema brasileiro. Era garoto quando vi ‘Sinhá Moça’, de Tom Payne, e nunca esqueci Ruth de Souza na cena do seu desespero quando o marido morre, atado ao pelourinho. Por mais equivocado que fosse o cinema da Vera Cruz, por mais contestado pelos cinenovistas, Ruth, Anselmo Duarte e a ‘nossa’ Greta Garbo, Eliane Lage, fazem parte do meu imaginário. Como esquecer Milton Gonçalves em ‘A Rainha Diaba’? Zezé Motta avançando para a câmera com a carta de alforria na mão, em ‘Xica da Silva’, para descobrir que a igreja, apesar disso, está fechada para ela? E Léa, dizendo para José Wilker que não é uma enganadora, em ‘O Maior Amor do Mundo’? Meus (e minhas) quatro guerreiros(as). Valeu a pena ter visto ‘Em Quadros’.

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