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Luiz Carlos Merten

27 Maio 2011 | 16h38

PARIS – O título não tem nada a ver com o filme de Christophe Honoré com Romain Durys e Louis Garrel. Contei para vocês que, quando entrevistei Catherine Deneuve e Honoré, o belo Garrel ficava caminhando ao redor, para cima e para baixo? Não pedi entrevista com ele, mas com o cara ali ficava pensando na reação de Maria Rosário Caetano. A mulher do meu colega de blog e redação, Luiz Zanin Oricchio, tem sua queda pelo garotão. E não só ela. Um monte de gente que conheço, independentemente de sexo, acha que ele é um tesão, mas Tiago Stivaletti, que o entrevistou, achou o Garrel meio mala. A entrevista foi curta, dez minutos, sei lá, e ele falou tanto que terminou respondendo meia pergunta. Mas, amigos, cá estou nesta cidade luminosa, ia escrever maravilhosa mas é o Rio, desde segunda-feira, e sem dar notícias para vocês. Amanhã à noite volto para o Brasil. quase um mês fora de casa, primeiro em Los Angeles, para as entrevistas de ‘Piratas 4’, depois Cannes e agora Paris, para mais entrevistas. Aproveitando que a gente já estava na Europa, a Unifrance organizou uma bateria de entrevistas – François Ozon, Natalie Baye, Elodie Bouchez, Sara Forestier, Jean Becker. Fiquei louco pela Sara. No filme de Michel Leclerc, ‘Les Nom des Gens’, ela faz um mulherão de comportamento libertário, que trepa com fascistas convencida de que, na cama, vai convertê-los à causa da esquerda. Na tela é morena, voluptuosa. Ah, a mentira do cinema. Surgiu aquela loira pequeninha, de óculos. A cor do cabelo faz parte do visual para o novo filme que começa a rodar amanhã, e mais uma vez  com direção de Leclerc. Os dois deviamestar  com muita vontade de divulgar ‘Les Nom des Gens’ para o público brasileiro para, na véspera de uma filmagem, passar a tarde dando entrevistas. Fiquei besta, gauchismo para pasmo, com a erudição de Sara ao falar sobre cinema. Ela foi atriz de Abdel Kechiche em ‘L’Esquisse’. Falamos sobre a importância da palavra no cinema dele, a reinvenção do francês como língua popular e eu confesso que tive de dar o melhor de mim para estar à altura daquela guria. Fodona! Seu sonho é ser diretora – autora. Ela já fez curtas, tem seu primeiro longa engatilhado. Vou torcer por Sara Forestier, que, aliás, ganhou o César de melhor atriz deste ano,justamente pelo filme de Leclerc, derrotando Catherine Deneuve (por ‘Potiche’, de Ozon). Por indicação de Benoit Delepine, co-diretor de ‘Mamouth’, com Gerard Depardieu, fui ver um filme chamado ‘La BM du Seigneur’. A BM é um carro, como a BMW, e o Senhor é o que está no ceu. O cinema tem feito muitos filmes que refletem a busca da graça e o mais recente que vi foi ‘Hors Satan’, de Bruno Dumont, na mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes. Jean-Charles Hue não busca a graça e, realisticamente, nos projeta no desespero. Seu personagem evoca o nome de Deus a toda hora e o que colhe é o Seu (do Senhor) silêncio, e a morte ao redor. Achei o filme terrível, não entendi muita coisa – o diálogo é pura fala de periferia, a cada dez palavras eu devia entender três/quatro -, mas gostei de ter visto. Não assisti a muita coisa nessa estada em Paris. Meu amigo Dib Carneiro está aqui, João Luiz Sampaio veio de Milão para se encontrar com a gente e ontem fomos a um recital de piano – Kurt Mazur seria o regente, mas aprontou a maior falseta, desistindo em cima da hora; o pianista era Peter Roesel, que achei virtuose, mas sem alma. Mas, enfim, Schubert e Liszt têm seu encanto e não diria que foi tempo perdido. Valeria só pela sala, o Théâtre des Champs Elysées, onde Igor Stravinski estreou ‘A Sagração da Primavera’, colhendo aquela vaia e aquela indignação reconstituídas na abertura de ‘Coco e Igor’. Do teatro, fomos para o alto da Torre Eiffel, porque eu queria ver a vista de Paris à noite. Entre fila e subida de elevadores etc, demoraramos cerca de duas horas, mas foi deslumbrante. Já tinha visto aquela vista de dia, mas, de noite… Não sei qual é mais bela. O problema era o vento no alto da torre. Vi um filme argentino, ‘O Olho Invisível’, sobre a repressão na época da ditadura militar, do ângulo da inspetora de disciplina de uma escola de segundo grau, e um épico, ‘A Águia da Nona Legião’, com Channing Tatum e Jamie Bell, que confesso que me surpreendeu. Nem sabia quem era o diretor – descobri depois que era o Kevin Macdonald, de ‘O Último Rei da Escócia’, do qual não gostei muito e esse é bem melhor. Um  tribuno tenta reconstituir a honra da família buscando com a ajuda de um escravo, a águia, símbolo de Roma, que seu pai perdeu combatendo os bárbaros. Nenhuma mulher, um drama entre homens, a relação pai/filho, senhor/escravo e mais a honra, a dignidade, a amizade. Tudo isso pode parecer demodê, mas eu curto. Os franceses, vale um parêntese, estão em choque com o affair Dominique Strass Khan, menos pelo assédio do político à camareira e mais pelo tratamento que a imprensa norte-americana deu ao caso. Conversei com o diretor de ‘Vraie Mensonges’. Brinquei com ele, dizendo que as verdadeiras mentiras não estão em seu filme. Agora, estou indo jantar com Dib, João e Elaine Guerini num tailandês que fica  perto da Ópera Bastille, o Blue Elephant. Amanhã tenho de ver a exposição de Stanley Kubrick na Sala Cinemateca. Vou tentar ver mais algum filme. O desafio é – qual? Há sempre tanta coisa para ver aqui. Domingo, espero estar em casa. Me aguardem.