Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Em memória (lembrança?) dos meus 20 anos

Cultura

Luiz Carlos Merten

18 Novembro 2009 | 15h13

BRASÍLIA – Estou no aeroporto, a caminho de São Paulo, onde espero assistir, à noite, a ‘Lua Nova’. Já ouvi 1001 piadas durante o almoço, tipo o estagiário da redação estar feliz da vida por ir ver o filme e eu cortar o barato dele. “Mas que que tu vai fazer num filme desses, criatura?’, me perguntou, em bom gauchês, Neusinha Barbosa. Muita gente me diz que não viu o primeiro filme da saga ‘Crepúsculo’ nem pretende ver, o mesmo ocorrendo com o segundo, o terceiro e o quarto. Eu vejo, por obrigação profissional, mas também porque depois de ter entrevistado Kristen Stewart e Taylor não-sei-das-quantas quero prestar mais atenção no trabalho dos dois. Fiquei hoje pela manhã em Brasília porque queria assistir ao debate de ‘Lula – O Filho do Brasil’. Foi um debate travestido de entrevista coletiva, alguns jornalistas começaram querendo bater – o filme seria eleitoreiro, chapa branca etc e tal -, e eu terminei colocando minha colher na história. O filme já nasceu sob o signo da polêmica, inclusive das intenções, e só tem para se defender a si mesmo, suas qualidades. Sinto muito dizer – para quem esperava um ataque a Fábio Barreto, o mais detestado dos diretores brasileiros, graças a filmes como ‘Jacobina’ e ‘Nossa Senhora do Caravaggio’ -, mas ‘Lula’ pode não ser o filme dos meus sonhos e certamente não é nenhum ‘2 Filhos de Francisco’, mas tem qualidades e a maior delas é a interpretação, como já disse. O que verdadeiramente faz a diferença é o ator que faz Lula, Rui Ricardo Dias. São três ou quatro, incluindo o bebê, e todos eles têm uma pegada muito forte. O garotinho é ótimo, na cena em que peita o pai; o adolescente tem um momento encantador, quando ‘rouba’ o beijo; e Rui, como já ousei escrever, é mais Lula do que o próprio. O verdadeiro continuismo não seria Dilma, mas Rui, o clone, para presidente. Um colega, na saída, brincou comigo. Estava todo mundo batendo, respeitosa e orquestradamente, quando eu desestabilizei o debate, elogiando o que me parece não apenas possível, mas necessário elogiar. No final, brinquei com Fábio Barreto – como ele se sente, nesta nova fase de bem-amado? O Festival de Brasília, propriamente dito, começa agora à noite. Não estarei aqui e também não verei a abertura da retrospectiva de Woody Allen, com a estreia de seu novo filme, ‘Whatever Works’. Aliás, encontrei-me aqui com Denise Dumont, que participa do júri e lança em janeiro, dia 15, o belo documentário de Lírio Ferreira, ‘O Homem Que Engarrafava Nuvens’, sobre seu pai, parceiro de Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira. Denise trabalhou com Woody Allen em ‘A Era do Rádio’, no número chicabum, em que encarnava Carmem Miranda. Comentei com ela que não gosto tanto do Woody Allen atual e ela fez uma defesa apaixonada. Disse que o velhinho, quase 80 anos, ficou tarado e só isso já faz dele algo especial no cinema norte-americano atual. De minha parte, posso até perder hoje o novo filme, mas o que quero rever mesmo, nessa retrospectiva, é ‘O Que É Que Há, Gatinha?’. Sei que o filme de Clive Donner saiu em DVD – pela Lume! -, mas espero revê-lo no CCBB. A quase totalidade dos filmes da programação é em película, espero que ‘Pussycat’ também seja. Peter Sellers como psicanalista mais louco que seu paciente (Peter O’Toole), Ursula Andress e Romy Schneider, a Swinging London, a trilha (Burt Bacarach). Tudo me leva de volta ao filme. Quero rever ‘Gatinha’ em memória dos meus 20 anos.