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Cultura » Em lembrança de Jill Clayburg

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Luiz Carlos Merten

08 Novembro 2010 | 14h24

Já fiz minha autocrítica várias vezes. No ‘meu’ mundo, algumas notícias chegam tarde. Vieram comentar comigo a matéria da ‘Veja’ e eu não sabia da falência da Metro. Fui ver anteontem ‘Um Parto de Viagem’ e assisti ao trailer de um blockbuster sobre o qual nunca tinha ouvido falar, ‘Skyline’. De onde saiu isso? Somente agora estou sabendo que morreu Jill Clayburg e parece que foi na sexta-feira. Jill Clayburg! Há mais de 20 anos ela lutava contra a leucemia, isso eu sabia. Não me lembro se foi seu primeiro filme, ou só um dos primeiros, mas Jill quase morreu na casca. Não deve ter sido fácil sobreviver a um filme tão ruim quanto ‘Os Ídolos também Amam’, em que Sidney J. Furie teve a infeliz ideia de contar a love story de Clark Gable e Carole Lombard. Jill já havia estrelado ‘O Expresso de Chicago’, não propriamente um disaster movie mas uma disaster comedy de Arthur Hiller, quando Paul Mazursky a chamou para fazer ‘Uma Mulher Descasada’. Ela ganhou o prêmio de interpretação em Cannes – recebido das mãos de Isabelle Huppert – e virou a opção de Bernardo Bertolucci para viver a mãe, cantora de ópera, de ‘La Luna’, quando Liv Ullman, a primeira escolha do diretor Bernardo Bertolucci, não teve condições de fazer o papel. Quase que na sequência Jill foi a ‘Hanna K’ de Costa-Gavras. Uma mulher que tem de enfrentar o mundo sozinha ao receber o pé do marido, uma diva que negligenciou o filho e descobre que ele é drogado, uma advogada da causa palestina. E Jill ainda foi a primeira mulher na Suprema Corte dos EUA, num filme de que não lembro o nome. Sabem do que eu mais gostava nela? Da voz. Entrevistei algumas vezes Bertolucci, mas nunca houve clima para lhe perguntar, nem eu me lembrei, se também foi pela voz que ele a escolheu para ‘La Luna’. Pode ter sido também por pensar que ela deveria ter uma razoável percepção do mundo da ópera, como neta, por parte do pai, um empresário judeu, da lendária soprano Alma Lachenbrach. Não sei de vocês, mas tenho sempre essa sensação de ter sido injusto com Mazursky, não valorizando muito o tipo de comédia dramática e dialogada em que ele era tão bom. Posso até concordar com Jean Tulard quando diz, no ‘Dicionário de Cinema’, que um pouco mais de vigor e crueldade teria dado mais força às mise-en-scènes do cineasta, mas isso não tira o mérito de ‘Ted & Bob& Carol &Alice’ nem de ‘Próxima Parada – Bairro Boêmio’, ‘Uma Mulher Descasada’, ‘Um Vagabundo na Alta Roda’, ‘Inimigos, Uma História de Amor’ e ‘Cenas em Um Shopping’. Na verdade, as cenas são da vida americana, da qual Masurky foi bastante crítico, e ácido. Jill era magnífica como Érica – era o nome da personagem, não? – em ‘Uma Mulher Descasada’. Suas cenas com Alan Bates tinham uma justeza de tom, eram (in)‘críveis’. Impossível não fazer esse registro sobre a morte de Jill Clayburg. Ela fez séries – ‘Law ands Order’, foi a mãe de ‘Ally McBeal’. E nem citei um de seus filmes mais populares – o mais? –, ‘Starting Over’, de Alan J. Pakula, que recebeu no Brasil o título de ‘Encontros e Desencontros’, o mesmo de ‘Lost in Translation’, de Sofia Coppola. Estou me lembrando agora – Jill namorou durante muito tempo o jovem Al Pacino. Foi uma surpresa quando ela se casou, no fim dos anos 1970, com o dramaturgo e roteirista David Rabe. Era quem estava ao lado dela quando morreu, em casa. Ficaram juntos mais de 30 anos. Gente, vou parar, senão choro. Eu amava Jill Clayburg.