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Luiz Carlos Merten

13 Outubro 2009 | 10h52

Nunca duvidei de que ‘A Fita Branca’ (Le Ruban Blanc) fosse ganhar a Palma de Ouro, um pouco porque o filme de Michael Haneke é bom – e eu não sou fã de carteirinha dele –, mas principalmente porque nunca deixei de pensar que Isabelle Huppert, na presidência do júri, fosse manipular para que isso acontecesse. Entrevistei Isabelle e lhe perguntei sobre isso. Ela fez cara de ofendida, mas bastou rever o filme no Festival do Rio para perceber, em definitivo, que houve manipulação, sim. Vamos deixar de lado o ‘Independência’, de Raya Martin, que ‘Cahiers du Cinéma’ considerou o melhor filme de Cannes em 2009 – todas as seções confundidas, já que ele não integrou a competição e sim, a mostra Un Certain Regard. Sempre achei que o melhor filme da mostra competitiva fosse ‘Un Prophète’, de Jacques Audiard, mas agora estou em dúvida. Quentin Tarantino mexeu comigo e cada vez que (re)vejo ‘Bastardos Inglórios’ fico mais perturbado com o filme, mas perturbação mesmo tive ontem ao rever ‘Anticristo’. Soube que meu amigo Pedro Butcher, de quem vivo discordando fraternalmente, deu a cotação mais baixa do Guia da ‘Folha’ para o filme de Lars Von Trier, acrescentando que se trata de uma bobagem. Sorry, Pedro, mas se há um coisa que este filme não é, é bobagem. ‘Anticristo’ pode até virar uma data na história do cinema, mais do que os filmes precedentes de Lars, os seus cults, como ‘Dançando no Escuro’ e ‘Dogville’. Meu Lars Von Trier favorito era ‘Ondas do Destino’, com Emily Watson, mas o ‘Anticristo’ ontem me balançou e eu agora só quero trivê-lo, para tirar a dúvida. Aliás, permitam-me divagar. Assisti ontem ao filme com amigos (Dib Carneiro Neto, Gabriel Villela, Cláudio Fontana). Ao chegar no estacionamento, Dib descobriu que havia perdido a carteira no Espaço Unibanco. Voltou ao cinema e encontrou a carteira no chão, com todos os documentos, mas sem o dinheiro, e não era pouco, porque ele havia tirado para pagar uma c onta em cash. Feita essa pequena digressão, permitam-me dizer que o prólogo do filme de Von Trier é tão deslumbrante quanto o primeiro capítulo de ‘Bastardos’, com a diferença de que Tarantino investe no poder da palavra e Lars a suprime, envolvendo o público numa estrutura puramente audiovisual. Aliás, somente ontem me dei conta de uma coisa – o filme é falado em inglês, mas foi rodado na Dinamarca e na Alemanha (a floresta). Não sei por que cargas d’água, mas no inconsciente registrei que o inglês era por ser uma c o-produção internacional, com elenco idem, mas o envelope do legista situa a ação em Kent, o que me havia passado despercebido. Em Cannes, onde a gente corre de uma sessão para uma coletiva e outra sessão, não havia ficado até o fim dos créditos ou também não prestara a devida atenção neles. É impressionante a quantidade de consultores (sobre angústia, natureza, animais, filmes de horror, psicanálise, homofobia, feminismo, mitologia, teologia, marionetes etc). Na entrevista com ele, o autor disse que escreveu ‘Anticristo’ numa crise de pânico e que tem consciência de haver filmado o próprio roteiro abaixo de suas possibilidades. Lars Von Trier também se referiu várias vezes à sua psicanalista e disse que não era filme para ser interpretado psicanaliticamente. Não é mesmo. A cena do jogo que Willem Dafoe tenta estabelecer com Charlotte Gainsbourg – o jogo de palavras, no qual ele é a natureza –, é a prova. Me lembrou o jogo de outro casal em crise, o formado por Sean Connery e Tippi Hedren em ‘Marnie’, quando ele ‘psicanaliza’ a mulher e a cena termuina com o grito de angústia, o pedido de socorro de Marnie. Hitchcock e Freud realmente nasceram um para o outro, mas Lars Von Trier… O jogo termina em fracasso e as ferramerntas, a partir daí, passam a ser outras. Mitologia, tragédia grega? Gabriel Villela viu no antagonismo entre Dafoe e Charlotte um peso parecido com o da ligação entre Anthony Hopkins e Jodie Foster em ‘O Silêncio dos Inocentes’. Ele também lembrou a ‘Medeia’ do proprio Lars Von Trier, na qual um dos meninos ajuda a mãe a matar o outro. A homenagem a Andrei Tarkovski – o filme é dedicado a ele – remete ao tema do sacrifício e Dafoe emerge do seu Gólgota para receber todas aquelas mulheres, muito interessante. Estou pasmo. Vai ser preciso (re)ver ‘Anticristo’ até o fim dos tempos para tentar absorver uma pequena parcela de sua riqueza dramatúrgica e cinematográfica.