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Luiz Carlos Merten

20 Fevereiro 2008 | 07h25

Cheguei! Depois de mais de um mês fora, incluindo férias e a cobertura do Festival de Berlim, eis-me de volta a São Paulo, aos acentos e cedilhas do meu computado. Aleluia! Mas não cheguei sem sobressalto. Mal havia tocado o pé em casa, ontem à noite – o vôo de Paris foi diurno -, e o telefone já estava tocando. Troquei a mala no aeroporto. É mole? Distraído, sem nenhuma experiência de viagem… Andei doente, como vocês sabem – e fui parar num hospital em Berlim -, mas agora passou, espero. Não pude repassar para vocês o que foi a cerimônia de encerramento e premiação da Berlinale. Foi um dia em que almoçamos juntos, os jornalistas brasileiros. Silvana Arantes, Elaine Guerini, Carlos Heli de Almeida, eu. Já estávamos iniciando os trabalhos quando, na mesa ao lado, se sentou o Kléber Mendonça. Foi Silvana quem deu a nova. Era sábado à tarde, a premiação seria dentro de algumas horas e a Silvana contou que alguém a informara de que o Padilha fora chamado para o encerramento, sinal de que ‘Tropa de Elite’ havia ganhado algum prêmio. Confesso que pensei que seriam o prêmio especial do júri ou o de direção, mas eles passaram e nada de o Padilha subir ao palco do Berlinale Palast. Nas panorâmicas dentro do palácio, dava para vê-lo, nas tomadas gerais de câmera. Não haviam dois ali dentro com aquele gorro colorido na cabeça. Confesso que quando o Dieter Koslick, diretor do festival, chamou o presidente do júri, Costa-Gavras, para anunciar o prêmio de melhor filme, o tão sonhado Urso de Ouro, só havia sobrado este. O coração disparou. Será…? E foi. Nunca havia visto o Brasil ganhar o prêmio principal de um grande festival internacional. Não estava em Berlim, há dez anos, quando o Central’ ganhou. Dei um pulo e um grito e a mulher do meu lado achou que eu estava protestando. Ela tentou iniciar uma conversa de descontente comigo, mas eu não quis nem saber. Com toda grossura fui logo dizendo ‘Fuck you!’. Achei que poderia haver alguma vaia. Afinal, o filme não estava na cabeça das preferências e tinha aquela crítica de ‘Variety’, esculhambando o ‘Tropa’ e comparando o Capitão Nascimento a Rambo. Mas o filme foi aplaudido e, quando o Padilha chegou para a coletiva, o aplauso virou ovação. Aceitei todos os prêmios numa boa, mesmo aqueles com os quais não concordava muito. Até agora não engoli aquela atriz do Mike Leigh, Sally Rowlins, que é igualzinho à personagem que interpreta em ‘Happy-Go-Lucky’. Nem gostei tanto do filme, mas a Kristin Scott Thomas, do francês ‘Il y a Longtemps Que Je t’Aime’, me pareceu do outro mundo. Achei corajoso que o júri tenha premiado o ator iraniano de ‘The Song of Sparrows’, quando havia uma pressão para que o prêmio fosse atribuído a Daniel Day-Lewis, por ‘Sangue Negro’. Só lamentei o prêmio de consolação para o mexicano Fernando Eimbcke, de ‘Lake Tahoe’. Ele merecia mais, depois de receber o prêmio da crítica. Enfim, deu Padilha e eu fiqui mais feliz ainda porque, na premiação da APCA, a Associação Paulista de Críticos de Arte, em dezembro, havia feito de tudo para que o Padilha ganhasse o prêmio de direção. Ouvi poucas e boas, que o prêmio era uma carta à sociedade brasileira e o que ela ia dizer de a gente estar premiando o Padilha como melhor diretor? Espero que tenha aprovado. Pois taí, Berlim e o Costa-Gavras referendaram o Padilha. Meninos, eu estava lá e eu vi.