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Luiz Carlos Merten

30 Maio 2011 | 12h22

Nem tive tempo de falar das estreias de ‘Estrada para Ythaca’ e ‘Minhas Tardes com Margueritte’ . Amo o filme do coletivo irmãos Pretti/primos Parenti e fui guerreiro para que ele ganhasse o prêmio de melhor filme na mostra Aurora de Tiradentes, no ano passado. ‘Ythaca’ marca o surgimento da distribuidora Vitrine, de Sílvia Cruz, que nasce com a proposta de colocar na tela o cinema brasileiro mais ousado, original, criativo (e alternativo) da atualidade, o cinema de uma garotada talentosa (como a própria Sílvia é jovem, bela e entusiasmada). As entrevistas com a Sílvia e os Pretti/Parenti teria dado uma matéria muito maior do que a publicada pelo ‘Caderno 2’ na sexta, mas espero que tenha ajudado a chamar a atenção para o filme. Outra entrevista, que fiz em Paris com Jean Becker, o diretor de ‘Margueritte’, sai publicada amanhã no ‘Caderno 2’. Cinemão francês, comercial, humanista e bom. O filme de Becker é sobre o encontro de Gerard Dépardieu, como um tipo bronco e analfabeto, com essa velha dama, Gisèle Casadeus, que desperta nele o amor pela leitura, pelos livros. Jean Becker é filho de Jacques Becker, grande diretor dos anos 1940 e 50. Ele não desfruta do mesmo prestígio do pai, autor de verdadeiras obras-primas (‘Amores de Apache’, ‘Grisbi, Ouro Maldito’, ‘As Aventuras de Arsène Lupin’, ‘Os Amnantes de Montparnasse’ e ‘A Um Passo da Liberdade’, Le Trou), mas gosta dessas histórias de gente humilde, des petits gens que têm dificuldade para (sobre)viver e que, às vezes, são bem bacanas. Falando sobre o tema de ‘Margueritte’, ele me disse que tem a ver com uma lição que aprendeu do pai – ‘A arte e os filmes podem nos ajudar a viver melhor’ e eu confesso que acredito nisso, piamente. Fiquei comovido com uma história que me contou Jean Becker. Ele tem uma pessoa que busca argumentos para ele, que faz uma espécie de pré-seleção, ou pré-leitura. O próprio Becker tem uma doença nos olhos e se cansa com muita facilidade quando lê. Ao contrário de Dépardieu no filme, Jean não gosta que leiam para ele e também não consegue ler tanto quanto gostaria. Acho que, por isso mesmo, esse filme tem uma carga (afetiva?) tão especial para ele. Dépardieu e a nonagenária Gisèle deram ao filme uma humanidade que superou toda expectativa do diretor. Perguntei-lhe, dada sua história pessoal e familiar, qual o mais belo souvenir d’acteur que ele tinha, podia ser de filme dele ou do pai. Dele, o mais belo continua a ser a jovem Isabelle Adjani de ‘Verão Assassino’, de 1983, há quase 30 anos. De seu pai, que trabalhou com grandes mitos da representação (Jean Gabin, Simone Signoret, Jeanne Moreau, Serge Reggiani, Micheline Presle, Gérard Philippe etc), o Raymond Rouleau de ‘Falbalas’, de 1945, quando ele tinha 12 anos e começava a descobrir os sets de filmagensd. Foi a segunda vez que entrevistei Jean Becker. A primeira foi por ‘Conversas com Meu Jardineiro’. Para mim, é sempre um prazer, não só por ele (e seu cinema honesto), mas principalmente por essa reverência que guarda, até hoje, pelo pai.