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Cultura » Em busca dos amigos perdidos

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Luiz Carlos Merten

12 Dezembro 2010 | 12h26

Rafael? Rodrigo? Tenho um vizinho, gaúcho e colorado, do qual sabia a existência, mas com quem nunca cruzava. Minha filha, a Lúcia, é gremista doente – não sei de onde, porque a mãe e eu somos colorados – e volta e meia me falava com irritação desse vizinho e de suas reações (foguetes, gritos) quando o Inter ganha. Pois bem, ontem desci no elevador com ele, que trabalha na redação da BBC em São Paulo. Apresentamo-nos e eu aproveitei para dizer uma coisa, o motivo desse post. Disse que conheci, em Israel, a correspondente da BBC, Guma, e é uma figura muito bacana. Volta e meia penso nela, mas sou tão reticente a celular e e-mail que, desse jeito, a comunicação fica mais difícil. Há tempos venho planejando voltar ao Peru, mais exatamente a Machu Pichu, que visitei no começo dos anos 1970. Imagino que hoje o turismo esteja mais massificado, mas, na época, minha ex-mulher, Doris, e eu fizemos o trajeto de Cuzco a Machu Pichu naquele trem compartilhado pelos nativos da região e por mochileiros de todo o mundo. Entravam aquelas ‘chollas’ – as índias com suas roupas coloridas – carregando galinhas, os homens carregavam porcos e era tudo uma festa. Já contei aqui. Fizemos a travessia de Puno para La Paz de carro, de noite. Dormi e, no meio da noite, acordei sobressaltado. O carro parara e nós estávamos em frente a uma igreja cujas torres se desenhavam contra um céu de estrelas. Era uma imagem tão linda que ficou gravada no meu inconsciente. Volta e meia ela volta, trazida sei lá por quais madeleines. Mas a questão é a seguinte – em Lima, Tuio Becker me fornecera o contato de uma amiga dele, que foi maravilhosa com Doris e comigo. Não consigo nem me lembrar de seu nome. Tuio era assim. Hoje, se estivesse vivo, certamente estaria na internet, twittando. Naquele tempo, era o rei das ligações epistolares, escrevia cartas para Deus e o mundo. Eu nunca fui de fazer isso, como não sou de trocar e-mails. Conheci tanta gente bacana na minha vida, gente que me deu seu contato e que eu simplesmente perdi. Lembro-me do Chile, em 1973, um mês antes do golpe contra Allende. Doris e eu estávamos em Santiago, alugamos um táxi para ir a Valparaíso. Amo aquela cidade. A vista do mar, do alto das encostas, quando a gente senta numa daquelas biroscas para tomar uma ‘copa’ de vinho, é uma das mais belas do mundo. Dóris e eu brigamos imediatamente com o motorista. O cara era contra Allende, nós o defendíamos. Chegou uma hora em que ele parou o carro no acostamento e disse que aquilo não podia continuar. Era um profissional, contratado para nos atender e, naquele momento, independentemente de ser partidário ou não da Unidade Popular, era chileno e gostaria que nós, como turistas, guardássemos uma bela lembrança de seu país. Que coisa eu estar me lembrando disso, agora! O que terá ocorrido com aquele cara que, num clima de radicalização, revelava aquele grau de tolerância, ou respeito, pelos outros – por nós? Terá tido uma conduta decente? Nesse caso, deve ter-se incompatibilizado com a ditadura de Pinochet. Existem horas em que me acho cabeça dura demais. Não, não vou comprar um celular nem estou fazendo uma resolução de fim de ano de começar a abrir meus e-mails. Acho que esse post é uma forma de tentar me comunicar com as milhares de pessoas das quais fui me distanciando. Sorry, pessoal!

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