Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Em busca do tempo perdido

Cultura

Luiz Carlos Merten

07 Março 2010 | 04h16

Cá estamos a poucas horas do Oscar. Quero dizer que estarei na redação do Estado, fazendo matérias, e isso poderá limitar, ou vai limitar, a possibilidade de postagem, mas vou criando um textos e deixando abertos para que vocês se manifestem. Mas vamos deixar um pouco o Oscar de lado. Sei que ‘Preciosa’ ganhou o Spirit – me contaram ontem na Reserva Cultural – e preciso pesquisar para saber quem foram os laureados da Framboesa de Ouro, o anti-Oscar. Daqui a pouco eu posto alguma coisa sobre isso. Fui ver ontem à tarde ‘Um Olhar do Paraíso’, na única sessão do filme de Peter Jackson no Shopping Iguatemi, um dos dois cinemas em que ainda permanece em cartaz. Fiquei muito impressionado e saí do cinema pensando com meus botões – Jackson viu, com certeza, o Depois da Vida’ do Hirokazu Kore-eda. À noite, fui (re)ver ‘O Segredo de Seus Olhos’ e o filme de Juan José Campanella é outro que me causa grande perturbação. Botei o (re)ver porque, sinceramente, não me lembrava de que, na cena em que a oficial de gabinete, superiora de Ricardo Darín, provoca o acusado para que ele confesse o assassinato – a cena é muito boa, isso eu me lembrava -, ele chega ao ponto de abrir a braguilha e tirar o pênis, que o diretor mostra, não exatamente em detalhe, mas perfeitamente visível. A perturbação que o filme me causa vem do desfecho, ou melhor, da cena imediatamente anterior, aquilo que se passa no quinto dos infernos e que descobrimos com Darin e que é muito forte. Saí do cinema, fui jantar – com meu amigo Dib Carneiro – e, ao chegar em casa, dei uma zapeada na TV paga, estava no meio de ‘O Pagamento’ e eu engatei com o superthriller de John Woo, a que assisto sempre com grande prazer. Adoro a estética da violência de Woo, como adoro a de Paul Verhoeven, e sempre me impressiona como esses dois ‘estrangeiros’ conseguiram usar a máquina de Hollywood para expressar um imaginário que é muito deles. Confesso que isso me interesse bem mais do que a maioria do cinema indy norte-americano, tão padronizado e aborrecido quanto Hollywood – aliás, é Hollywood às avessas (e quase sempre sem gente bonita), Ontem, revendo ‘O Pagamento’ fiz sei lá que ponte com ‘Bastardos Inglórios’, de Quentin Tarantino – a mesma euforia de filmar, de misturar gêneros e de, no limite, transformar a pujança do espetáculo numa metáfora do próprio cinema. Estava podre de cansado, mas o filme me deixou num estado de excitação. Deitei-me e ainda viajei um pouco na lembrança de grandes filmes, antes de dormir. Hoje, misturando tudo, como sempre – o post não é só sobre uma coisa -, quero dizer para vocês algo que pode ser interessante, até como alternativa ao Oscar. Estava em Berlim quando li, numa daquelas revistas de circulação diária do festival, ou encontrei na internet, quando pesquisava algum nome ou equipe de filme, a seguinte história. A revista francesa ‘La Règle du Jeu’ conseguiu exumar uma preciosidade cinematográfica, uma reportagem inédita da filmagem de ‘O Ano Passado em Marienbad’, feita com uma câmera super 8 por uma das atrizes do cult de Resnais, Françoise Spira. Este material é comentado por Volker Schlondorff e podia ser encontrado – espero que permaneça – no endereço http://laregledujeu.org. A propósito de Schlondorff, o diretor alemão, que foi assistente de Resnais, lançou não faz muito tempo seu livro de memórias, ‘Tambour Battant’, no qual dedica um capítulo inteiro a ‘Marienbad’. Ele conta que todo mundo, no set, sabia que Resnais estava fazendo alguma coisa inédita. Ninguém podia garantir no que ia dar, mas Schlondorff garante que nunca viu equipe mais entusiasmada, porque, se houve filme no qual atores e técnicos tinham a impressão de estar reinventando o cinema, foi aquele. Dada a ausência de história, construída e desconstruída por Alain Robbe-Grillet, mas não apenas por isso, os atores  não sabiam nada de seus personagens. Não sabiam mais do que os figurantes, em todo caso – sempre achei que Delphine Seyrig, Giorgio Albertazzi e Sacha Pittoef são esculturas vivas – e Schlondorff lembra como ela, principalmente, se desesperava (um desespero fashion? Com aquele vestido de plumas…) por não saber o que expressar e Resnais a levava para um canto, sussurrava alguma coisa em seu ouvido e a dócil Deplphine retomova seu lugar no plano. Não me lembrava, mas o monumental castelo de Schleissheim, que já fornecera a Kubrick os ambientes de ‘Glória Feita de Sangue’ (Paths of Glory, de 958), serviu de locação para ‘Marienbad’. Aquele plano – Delphine, seguida pela câmera do genial Sacha Vierny, avança meio claudicante, com o sapato cujo salto quebrou na mão. A ideia foi retomada no desfecho de ‘Indochina’, com Catherine Deneuve. Procurem no endereço que assinalei. Espero que o documento filmado (e comentado) ainda esteja lá.