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Luiz Carlos Merten

26 Junho 2011 | 11h27

O que será quer Roman Polanski vai fazer com a peça de Yasmina Reza, ‘Deus da Carnificina’. É seu novo filme. Havia visto a peça em Paris com Isabelle Huppert, dirigida pela autora. A própria Yasmina falava em dirigir a versão para cinema. De repente, Polanski entrou na jogada. A peça tem tudo a ver com o universo dele, sua atração pelo mal nas relações humanas. Na sexta, fui ver a montagem brasileira, com Júlia Lemmertz e Paulo Betti. Por mais que admire e respeite os dois, tenho de dizer que achei um desastre. M. Huppert era a própria encarnação do estranhamento brechtiano e os conflitos afloravam num crescendo que não deixava pedra sobre pedra. No Brasil, a peça ganhou um subtítulo – ‘Uma Comédia sem Juízo’. Tem valor de advertência. Emilio de Mello, um ator que dirige, carregou na comédia, com momentos de pastelão. Mas o texto é tão forte que, mesmo aos trambolhões, resiste. É menos do que posso dizer de ‘Menecma’, de Bráulio Mantovani, direção de Laís Bodanzky, que fui ver ontem. As duas peças encerram temporada hoje. ‘Menecma’ está no Sesi da Paulista. Não consigo imaginar qual será a zorra se a Parada do Orgulho Gay se estender até à noite. Laís o o marido, Luiz Bolognesi, fizeram um filme que adoro, ‘As Melhores Coisas do Mundo’. No cinema, a carreira foi digna, mas modesta, 300 e poucos mil espectadores. ‘As Melhores Coisas’ estourou na TV paga. Luiz me contou ontem as novidades. Falou do filme infantil que escreve para os Gullane produzirem com os franceses – a história de um macaquinho, astro de cinema, que se perde na Amazônia – e o novo projeto de Laís, ‘Sobre Nossos Pais.’ Depois da terceira idade (‘Chega de Saudade’) e da juventude (‘As Melhores Coisas’), Laís se volta para sua geração. Já estou nos cascos. Laís é ótima de cinema, mas não de teatro. Os elementos noir que compõem o receituário de ‘Menecma’ não chegam a caracterizar uma estética. Odiei a sonoplastia – cada raio daqueles me deixava com vontade de fugir – e a farsa não me pegou. Como dramaturgia, me pareceu nula – a versão piorada de ‘Irma Vap’. Sorry, Laís, mas não terminei. Não sou exatamente correto, mas a fala final me pareceu não apenas homofóbica como uma provocação gratuita (hoje). Alguém – não estou entregando a trama – observa que veneno, em trama policial, é solução de mulher, ou de viado. Não creio que seja verdade. Dame Agatha Christie se orgulhava de ter tirado o curare das listas de armas mortais. Já Shakespeare usa bastante o veneno, não? Antônio Gonçalves Filho vazi lembrar a ambiguidade dos sonetos para dizer que Shakespeare era bissexual, ou pansexual. Viado, duvido que alguémk tenha culhão para dizer que ele era e nem o Bráulio, com sua experiência em ‘Tropa de Elite’, 1 e 2, vai ousar tanto. O curioso é que ‘As Melhores Coisas’ era tão correto. O que houve? Uma forma de chegar rapidamente ao público? A plateia adora esse tipo de piada. Cada vez que a solução cênica era fácil, ou exagerada, o público ria desbragadamente. Meio que me deprimi e, no final, nem tive ânimo para cumprimentar Luiz Bolognesi, pelo trabalho da mulher. Teria sido falso, e isso eu não sou. Saímos do teatro e fomos jantar no Arábia. Gabriel Villela, Dib Carneiro, Claudio Fontana, dois amigos portugueses – o ator Júlio Felipe Cardoso e a namorada; ele é filho de um dos grandes do teatro de Portugal, no Porto, Júlio Cardoso. Júlio Felipe deu notícias alarmantes da crise portuguesa. O governo socialista já diminuíra os custos da cultura. O novo governo conservador foi mais longe – eliminou o Ministério da Cultura e transformou a pasta em secretaria, com dotação logicamente menor. Todo mundo teme que Portugal seja a próxima bola, depois da débacle da Grécia. Se o euro, e a União Europeia, forem para o brejo, o que será da Europa? Fim do euro. Alemanha, França e Inglaterra vão sobreviver e até a Espanha entra em crise, arrastando o sistema financeiro mundial com seus grandes bancos. Neste quadro de hecatombe, Júlio Felipe Cardoso me contou uma história ótima sobre Manoel de Oliveira. O mestre, prestes a completar 103 anos, contactou o arquiteto Álvaro Siza Vieira, de 85 anos, para trabalhar com ele. Vieira disse que está velho, não tem tempo. Oliveira tranquilizou-o. “Temos tempo. O projeto é para 2015”, disse o centenário. Não é o máximo? Que exemplo… Uma história típica de Oliveira e de como essa instituição da cultura europeia se sente acima das crises.