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Cultura » Elsa e Fred, cadê vocês?

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Luiz Carlos Merten

28 Dezembro 2006 | 20h42

Sérgio Oliveira, de Minas, manda um e-mail para pedir um adendo à lista dos melhores filmes no Caderno 2. Ele gostou demais de Elsa e Fred – Um Amor de Paixão. Olha, Sérgio, confesso que não fiz pesquisa para a lista e ela me veio de sopetão, tanto que cheguei a dez títulos e nem tinha observado, porque não me dei ao trabalho de contar. Mas eu gosto muito de Elsa e Fred e acredito ter contribuído para o sucesso do filme do Marcos Carnevale, que quebra uma escrita. Os distribuidores costumam dizer que jovem não gosta de filme de velho e, como a maioria do público que vai a cinemas é formada por jovens, os filmes de velhos terminam sendo veneno de bilheteria. Não é verdade, ou então o público de terceira idade cresceu muito a ponto de manter Elsa e Fred tantos meses em cartaz. Detesto as generalizações e acho que esta é uma daquelas que se fazem irresponsavelmente. Filmes de velhos, de negros. Brasileiro não gosta disso, dizem. Que coisa mais preconceituosa. Deixem os filmes de velhos em cartaz, dêem tempo para que se difunda o boca-a-boca e quero ver se a idade dos atores (ou a cor da pele) derruba um bom filme. Umberto D e Morangos Silvestres são, para mim, dois dos maiores filmes de todos os tempos. Não só para mim. Não conheço cinéfilo – de qualquer idade – que não tenha verdadeira paixão pelo Carlo Battista no filme do De Sica ou pelo Victor Sjostrom no de Bergman. Uma das coisas mais bonitas que já ouvi, mais profundo do que qualquer crítica, foi o comentário do Scorsese sobre Umberto D no documentário Minha Viagem pelo Cinema Italiano. Tenho falado tão mal do Scorsese que não custa elogiar o Scorsese-cinéfilo. O livro/filme dele sobre o cinema americano também é maravilhoso, mas o do italiano é especial. O que ele escreve sobre Rossellini, De Sica e Antonioni é de arrepiar. Curiosamente, suas observações sobre Visconti são mais ligeiras, ou não me apanharam tanto. Estou me desviando, mas gostei demais do Elsa e Fred, das reminiscências do Fellini que se encontram no filme e principalmente gostei do Federico Luppi e da China Zorrilla. Luppi é, para mim, um dos maiores atores do mundo, e não apenas de língua espanhola. Vê-lo e a China Zorrilla foi uma emoção e tanto. Há uma troca na tela. São dois grandes atores numa interação maravilhosa. Acho que qualquer cena dos dois seria digna de figurar entre as melhores do ano, mas a da Fontana di Trevi leva a palma, quando China reconstitui o passeio de Anita Ekberg pela Roma noturna de A Doce Vida. Você olha e pode até querer pensar – que coisa ridícula! Uma velha tentando realizar seu sonho de menina-moça. Que ridículo que nada! É sublime. Elsa e Fred foi um daqueles filmes que, neste ano, me reconciliaram com a espécie humana.