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Luiz Carlos Merten

28 Maio 2009 | 15h30

Fiz ontem a ronda das livrarias, em Paris, antes de rumar para o aeroporto. Comprei livros que me haviam interessado. ‘Nouvelle Vague – Portrait d’Une Jeunesse’, de Antoine de Baecque; o ‘John Huston’ de Patrick Brion; a edição conjunta de ‘Kazan’ e ‘Losey’, de Michel Ciment. Os dois livros foram reeditados num só volume alentado, com uma introdução do próprio Ciment, que faz a ponte entre os dois autores cujas vidas sofreram uma ruptura durante o macarthismo. Kazan colaborou com a Comissão de Atividades Anti-Americanas do Senado dos EUA, Losey exilou-se. Seus caminhos só se cruzaram de novo quando Kazan apresentou ‘Os Visitantes’, escrito por seu filho Nicolas, em Cannes, acho que 1972, e Losey, no júri, impediu que ele fosse premiado. não sabia da história relatada por Michel Ciment. Comprei mais um livro, sobre René Clément, o diretor de ‘Brinquedo Proibido’ e ‘O Sol por Testemunha’, confesso que atraído pelo apêndice, com testemunhos sobre o diretor e o de Alain Delon é o primeiro, uma entrevista longa. Não me arrependi. Mesmo grato a Visconti, e consciente de que cada grande diretor com quem trabalhou – Antonioni, Melville, Losey etc – lhe acrescentou alguma coisa, Delon reserva um carinho especial para Clément, que foi, segundo ele, seu mestre, seu mentor. Ele próprio diz – ‘Todo mundo pensa que foi Visconti’ (eu pensava). Ele fez ‘Plein Soleil’ e foi assistindo ao filme sobre Ripley que Visconti teve a idéia de fazer dele o seu Rocco, o que me surpreendeu, porque Ripley é um assassino frio e Rocco é o retrato da bondade e do idealismo. Não resisto a somar aqui uma observação do ator que, comentando a obra posterior do diretor, disse que muito lamentou o fato de o produtor, tendo Charles Bronson sob contrato, haver preferido o cara de pedra para fazer ‘O Passageiro da Chuva’, que Delon adoraria – ele confessa – interpretar. Arrependo-me agora de não haver comprado outro livro, ‘Alain e Romy, Ils se Sont tant Aimés’. O livro é mais um álbum de fotos sobre o romance de Alain Delon e Romy Schneider. As fotos são magníficas. O jovem Alain, o homem mais belo do mundo, a jovem Romy num intervalo das filmagens de ‘Christine’, de Pierre Gaspard-Huit; Alain e Romy e Annie Girardot e Renato Salvatori no Festival de Veneza, após a exibição de ‘Rocco e Seus Irmãos’, que seria preterido em favor de ‘A Passagem do Reno’, de André Cayatte, na disputa pelo Leão de Ouro. São fotos de ‘légende’ – de lenda, como dizem os franceses. Uma, eu achei impressionante. Romy Schneider, após a morte do filho David, participa de uma pré-estreia com Alain Delon e sua então mulher, Mireille Darc. Ela aperta os braços de ambos, mas a legenda, do próprio Delon, diz que ela já os havia abandonado (‘Elle nous avait déjà quittés’). O olhar é de abandono total. O vazio absoluto. Romy morreria em seguida, mas de alguma forma já parecia morta naquele momento. Confesso que foi uma das minhas frustrações em Cannes, neste ano. Queria muito ter assistido ao documentário sobre o filme inacabado de Henri-Georges Clouzot com Romy, ‘L’Enfer’. Assisti a algumas sessões de Cannes Classics – ‘Os Sapatinhos Vermelhos’, ‘Senso’ (Sedução da Carne) e o documentário sopbre Pietro Germi. Não houve como conciliar o horário de ‘L’Enfer’ com as obrigações do festival. Hilda Santiago, no Festival do Rio, ou Leon Cakoff, na Mostra de São Paulo, poderiam nos (me?) fazer esse favor.

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