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Cultura » Elenco nota 10

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Luiz Carlos Merten

26 Novembro 2007 | 13h52

Assisti agora a ‘No Vale das Sombras’ e estou reformulando minha lista de favoritos (indicados?) para o Oscar. Achava Joaquim Phoenix, por ‘Os Donos da Noite’, e Marion Cotillard, por ‘Piaf’, imbatíveis, mas, sabem como é, ela é francesa, talvez não consiga nem ser indicada. Tommy Lee Jones bem poderia ganhar sua estatueta de melhor ator, depois de haver empalmado uma de melhor coadjuvante (por ‘O Fugitivo’). Se dependesse de mim, Charlize Theron também podia ser indicada como melhor atriz e até ganhar seu segundo Oscar – o primeiro merecido, porque até hoje não consegui engolir aquela machona dela em ‘Monster’. Agora, de quem eu gostei mesmo foi da Susan Sarandon. Aquela cena de choro ao telefone, quando ela cobra do marido o sacrifício de dois filhos, vale um prêmio de coadjuvante e a Susan, de quem gosto bastante, é outra cujo Oscar (de melhor atriz, por ‘Os Dez Passos de Um Homem’, bancando a freira, dirigida pelo maridão Tim Robbins) nunca me pareceu muito merecido. É a velha regra hollywoodiana – pega uma linda, ou gostosa, enfeia ela e faz chorar, e o prêmio tá no papo. Quanto ao próprio filme do Paul Haggis, gostei médio. ‘No Vale das Sombras’ metaforiza a história de Davi e Golias, contando a história desse pai que tenta descobrir o que realmente ocorreu com seu filho, que regressa aos EUA, vindo do Iraque, desaparece sem deixar vestígio e aparece esquartejado, com os restos queimados. Tommy Lee Jones é o pai, ex-militar que deu dois filhos para a pátria; Susan é a mãe e Charlize é a investigadora que precisa vencer o preconceito dos colegas e também as restrições que o Exército lhe impõe para ajudar o pai desesperado em sua busca. A bandeira em frangalhos do desfecho representa o país cujos valores estão desacreditados e Haggis não poupa ninguém. São todos responsáveis pelo horror, até o pai que vai ter de conviver com a culpa de não ter atendido ao pedido de socorro do filho, justamente por acreditar nessa patriotada de que os poderosos se utilizam com fins bem pouco nobres. Paul Haggis fez um filme sobre, ou para, a maioria silenciosa. A cara amarrotada de Tommy Lee Jones é o próprio pathos. A dor é tão evidente que chega a produzir mal-estar. Pode-se até fazer um paralelo de ‘No Vale das Sombras’ com ‘Redacted’, de Brian De Palma, e ‘Leões e Cordeiros’, de Robert Redford. Todos criticam a mídia e as imagens que ela projeta da guerra. De Palma usa todo tipo de imagem – TV, cinema, internet, celular, câmeras de vigilância, tudo filmado ou gravado por ele próprio – para dizer que imagens podem ser manipuladas e é dessa maneira que a verdade termina sendo a primeira vítima de toda guerra. Tommy Lee Jones também é assaltado pelas imagens e sons que vêm da TV e do rádio e estão sempre dizendo coisas mentirosas sobre a guerra (ofensivas mirabolantes e coisas afins). Ele tenta decifrar os arquivos corrompidos que seu filho mandou, mas o sistema não é confiável e as próprias imagens se tornam ininteligíveis, ou então só podem ser idealizadas (quando ele, na imaginação, decobre o que pode ter ocorrido). É interessante, mas não muito melhor do que isso. Agora, o elenco… Êta, gente boa!

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