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Luiz Carlos Merten

25 Janeiro 2007 | 10h16

Estou em Congonhas, embarcando para Belo Horizonte, de onde sigo, por terra, para Tiradentes, que realiza seu 10° festival. Amanhã, participo de um debate, num ciclo que tem curadoria de Cleber Eduardo. Adoro o pessoal da Universo, que faz o Festival de Tiradentes – Raquel, Fernanda.Esta data redonda, dez anos de Festival de Tiradentes, é o gancho para debater o cinema da retomada. Não sei direito qual é a programação, mas as sessões noturnas, ao ar livre, na praça central da cidade, são sempre muito legais. Uma das minhas grandes emoções foi ter assistido a Netto Perde Sua Alma debaixo da chuva.A praça ficou deserta e eu, da porta de um boteco, fiquei olhando aquielas imagens à distância. Gosto do filme do Tabajara Ruas e do Beto Souza,mas acho que foi ali que o gostar virou fervor.E eu gosto demais das cidades históricas mineiras. Tiradentes, Ouro Preto, São João Del Rey, Diamantina (minha preferida) e aquela pertinho de BH, que tem a capela do Ó, verdadeira jóia arquitetônica. Vou – mas deixo hoje São Paulo com certa tristeza,porque é o aniversário da cidade e desde que aqui estou, no final de 1988, não perco dois eventos de rua. A corrida de São Silvestre e os shows de aniversário de Sampa. O feriado também antecipa as estréias de cinema, que normalmente ocorrem às sextas. Já falei um pouco de A Grande Família e Perfume. Fico devendo Apocalypto, do Mel Gibson, que ainda não vi, mas cujo trailer é espetacular. Fiquei nos cascos quando vi e estou me lixando para o que todo mundo fala de mal do filme (e seu diretor). Quero chamar a atenção,muito particularmente,para a estréia de El Violín,O Violino, do mexicano Francisco Vargas. Não cheguei a Cannes, no anopassado, como representante do cinema latino-americano(ou íbero-americano) quando integrei o júri da Caméra d’Or, presidido pelos irmãos Dardenne,mas foi nisso que me converti. Em geral, sou bom de júri, no sentido de que defendo bem meus preferidos (e muitas vezes consigo emplacar prêmios importantes). Em Cannes, não houve jeito. Tínhamos um acordo prévio de não dividir prêmios nem outorgar menções,para não diminuir a força da Caméra d’Or,para diretor estreante. Meus favoritos eram os filmes emlínguia espanhola – El Violin,Hamaca Paraguaya, de Paz Encina, e Honor de Cavalleria, de Albert Serra. O restante do júri, todo europeu, se inclinava para uma produção de lá. Fui tonto. Devia ter centrado fogo em Hamaca Paraguaya, cujo radicalismoestético tinha mais simpartizantes no júri do que El Violín. Os Dardennes achavam o filme de Francisco Vargas muito estetizante, porque a estética dele começa (mesmo) bebendo na fonte de Gabriel Figueroa, com seus jogos formais,mas há uma mudança importante quando a ação sai da cidade e vai para a áspera paisagem da montanha, quando fica claropara a gente o envolvcimento de Don Plutarco com a luta armada. O filme contaa história deste filho que percorre vilarejos com o filho e o neto, tocando violino. Na verdade,ele desempenha uma importante função de olheiro do movimento guerrilheiro. Gostro demais de Don Angel Tavira, que faz o papel e não tem a mão direita, tendo de atar o arco no pulso para tocar. Revi O Violino em Gramado, quando ele papou os principais prêmios do ano passado, e continuei gostando. Mas, quando assisti de novo a Hamaca e Honor de Cavalleria na Mostra, ficou claro para mim que os outros dois eram melhores. Entendo a opção dos Dardennes por A Fost Sau N-A Fost?, do romeno Corneliu Poromboiu,mas fui voto vencido. Não votaria nele para melhor de coisa alguma, muito menos para melhor da Caméra d’Or.

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