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Luiz Carlos Merten

13 Fevereiro 2007 | 21h09

BERLIM – Em 12 edicoes da Berlinale (minha primeira foi em 1995 e, desde entao, soh deixei de vir um ano), consigo manter um ritmo de tres quatro, ateh cinco filmes por dia. Hoje bati meu recorde – das 9 da manhah aas 23h30 locais, assisti a seis filmes, mandei materias para o jornal e ainda almocei e jantei, porque sou do tipo que acha que saco vazio nao fica de peh. Tinha de sacrificar alguma coisa, e terminei sacrificando o blog. Vou tentar recuperar alguma coisa antes de dormir. Comecei a manhah assistindo ao filme argentino El Otro, de Ariel Roter. Gostei, mesmo achando que, sobre um tema similar, ou com caracteristicas similares, existe outro filme argentino melhor – Extranos (leia como se tivesse nh). Jah tenho meu candidato a melhor ator e eh Julio Chavez, que jah estava excepcional em El Custodio, que passou no Brasil como O Guarda-Costas e tambem assisti pela primeira vez aqui em Berlim. Chavez eh impressionante. Nao existe ator mais cinematografico nem mais economico – seus gestos, olhares, sua voz, quando ele fala (porque os dois filmes quase nao teem dialogos) sao justos, no sentido de exatos. E eu achei a ideia do filme muito interessante. Ariel Roter fez um filme sobre pai e filho, sobre este filho maduro que cuida do pai, que estah no fim da vida e que, ele proprio, vai ter um filho que, talvez, cuidarah dele no futuro. O filme versa sobre o tempo, sobre a degradacao do corpo. Na coletiva, a que assisti porque queria ver Julio Chavez – mas ele perdeu a conexao, ficou lost in translation e nao chegou a tempo -, os jornalistas europeus ficavam buscando as influencias de Pirandello e Antonioni (O Passageiro: Profissao Reporter), porque o personagem, impulsivamente, troca de identidade e, num desses momentos, adota o nome de um sujeito que descobre, depois, que estah sendo velado numa capela proxima. Ele vai lah e tem, metaforicamente, uma antecipacao do proprio funeral. De minha parte, achei que tinha alguma coisa de Cortazar e Roter disse que ninguem consegue ser artista na Argentina se, de alguma forma, nao tiver assinaalado alguma coisa do grande Julio. A surpresa, mas nao foi tao surpresa assim, foi ouvir Ariel Roter dizer que, se sofreu alguma influencia, foi de Fernando Pessoa. Ele ama o poeta portugues e os heteronimos de Pessoa o ajudaram a transpor a ponte, ou as pontes, para o outro (os outros).

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