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Luiz Carlos Merten

02 Fevereiro 2008 | 07h32

MADRI – Perdoem-me, mas ando muito relapso, mas é tanta coisa para ver que não me sobra tempo paras postar. Ontem fui ao monastério de El Escorial, na serra de Guadarrama, distante uns 80 quilômetros de Madri. Foi lá que viveu recluso no fim da vida e morreu o imperador Felipe II, que entrou para a história como o defensor da fé católica, combatendo otomanos e protestantes. O monastério é uma obra impressionante que, por seu gigantismo, demorou pouco, apenas 21 anos, para ser concluída, com a tecnologia disponível no século 16. Tem jardins que devem ser belíssimos, mas é inverno e toda aquela vegatação está rala. Se algum dia visitarem o Escorial, prestem atenção na basílica e na biblioteca, que é uma coisa de louco, com raridades que remontam há 500 anos. De volta a Madri, queria ver o carnaval local, marcado para as sete da noite na Plaza Mayor. Mas antes fui ver ‘John Rambo’ – Stallone desideologizou seu personagem – e quando cheguei no tal carná, às dez da noite, havia terminado! Estes espanhóis podem ser bons de museus e artes visuais, mas não entendem nada de carnaval. Dois ou três recadinhos para vocês. 1. Amanhã à noite ocorre a festa de entrega do Goya, o Oscar do cinema espanhol. O campeão de indicações é ‘El Orfanato’, de J.A. Bayona, produção de Guillermo Del Toro, que vi de cara porque era o filme em cartaz no cinema (de rua) em frente ao hotel em que estou, na Gran Vía. Descobri depois que ‘El Orfanato’ é a maior bilheteria do cinema espanhol nos últimos anos e um fenômeno de público e crítica que já motivou até livros de interpretação. O filme de Bayona foi indicado pela Espanha para concorrer ao Oscar mas, como ‘O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias’, de Cao Hamburger, não ficou entre os cinco. Aliás, não ficou nem entre os nove. 2. Outro fenômeno é ‘Los Crimenes de Oxford’, de Alex de La Iglesia, com John Hurt e Elijah Wood, cujo roteiro comentado pelo diretor é um dos dez livros mais vendidos no País, na atualidade. Fui à Fnac daqui e fiquei quase louco com a quantidade de livros de cinema. Para fãs de westerns, como eu, aquilo é a glória. Os espanhóis levam muito a sério o bangue-bangue e existem numerosos livros, de autores locais, sobre o gênero (ou assunto). Na loja do Museu Reina Sofia, onde fiquei tonto no meio de todos aqueles Picassos e Mirós – mas ‘Guernica’ estava fechado, para integrar a grande exposição dedicada ao artista que começa no dia 6 (com boa parte do acervo do Museu Picasso de Paris) -, comprei um livro sobre Henry King, editado por Donostia-San Sebastián, o festival que dedicou uma grande retrospectiva ao diretor. Sempre tive a maior curiosidade por ele. Henry King, que desenvolveu boa parte de sua carreira na Fox e desfrutava de tanto prestígio em Hollywood, nos anos 30 e 40, que era chamado de ‘diretor de diretores’. Ele fez mais de uma centena de filmes de todos os gêneros, mas esta versatilidade, ao contrário da de um Walsh, era considerada fraqueza por muitos críticos, no caso dele. Tem filmes de Henry King de que gosto muito – os westerns ‘Jesse James’ e ‘O Pistoleiro’ (The Gunfighter), a aventura nos mares ‘O Cisne Negro’. Embora tenha dirigido meia Hollywood, sua parceria mais notável foi com Gregory Peck. Pois, apesar de sua importância, Henry King era considerado só um ‘artesão’ e, como tal, subestimado. Dei uma olhada no livro, li umas partes e vi que os caras aqui o tomam muito a sério. Bem interessante. Agora, chega. Estou no aeroporto de Madri, Barajas, indo para Barcelona. Até!

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