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Luiz Carlos Merten

20 Abril 2007 | 15h53

Minha ex-mulher, Doris Bittencourt, mãe de minha filha Lúcia, continua uma grande amiga. Tão grande que Doris foi ao Chile, na Semana Santa, e voltou de lá com um presentão para mim, que encontrei em casa, ao chegar hoje da viagem ao Japão, por conta de Homem-Aranha 3. Doris encontrou, e comprou, o DVD de El Chacal de Nahueltoro, que ambos havíamos assistido no começo dos anos 70, em Montevidéu, numa exibição no circuito alternativo. O Brasil vivia a negra noite da ditadura e o Uruguai, ali vizinho – morava em Porto Alegre, na época –, também enfrentava problemas políticos, mas fosse porque eles tinham maior cultura cinematográfica, ou porque os milicos deles acreditavam menos na força mobilizadora do cinema, filmes que no Brasil eram proibidos lá eram exibidos. Foi assim que fui, fomos, assistir a A Laranja Mecânica, do Kubrick, que teria uma sessão às 11 da noite. Jantamos e, à espera do grande momento, fomos dar uma volta. Passamos por um lugar, era um sindicato ou o quê, que anunciava o novo cinema do Chile. O filme era El Chacal de Nahueltoro. Entramos para fazer hora e eu tomei um dos maiores choques da minha vida. Sempre fui devoto de São Kubrick e reconheço a importância de A Laranja na obra dele, mas o filme nunca me provocou muito entusiasmo. O motivo é simples – quando começou a sessão de A Laranja, em Montevidéu, naquela noite no começo dos anos 70, eu ainda estava surtado com O Chacal. Vi só uma vez – espero rever agora em DVD –, mas o impacto foi profundo e radical. Miguel Littin contou a história de um criminoso, um cara que cometeu um crime hediondo, sob o efeito da bebida, e foi condenado à morte. Até a execução da sentença, passaram-se anos. Na cadeia, o cara, que era analfabeto, um bruto, aprendeu a ler, a escrever, adquiriu uma profissão, virou um outro homem. Tudo o que o sistema lhe havia negado quando ele, antigo campesino, morava na periferia, lhe foi dado na cadeia. Mas o novo homem em que se transformou não teve a chance de se inserir socialmente. O cara foi educado para ser morto, pois a sentença foi executada. É um filme tão impressionante, tão seco, tão pobre de recursos mas tão forte, esteticamente, que até hoje O Chacal permanece como meu modelo de filme latino-americano. Não gosto de tudo o que Littin fez depois – para dizer a verdade, gosto só deste filme, mas é uma coisa tão extraordinária que tenho de agradecer, publicamente, à Dóris por me reabrir a porta para o Chacal. Não sei como, ou se, será possível trazer o filme para o Brasil, mas o lançamento é do selo Quality (veja no site www.qualityfilms.cl). Quem sabe a internet não ajuda a divulgar este clássico desconhecido do Chile?