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Luiz Carlos Merten

15 Novembro 2010 | 10h50

Cá estou eu de volta em São Paulo. Cheguei ontem à noite, tarde, saí para jantar e foi um sufoco conseguir um restaurante aberto. Minha ex, a Doris, é de Dom Pedrito, no interior do Rio Grande do Sul – na verdade, quase na fronteira –, e eu digo sempre brincando que, depois da meia-noite, é mais fácil encontrar um restaurante aberto em Dom Pedrito do que nos Jardins. O que nos salva é sempre o Pasta e Vino, mas ontem queria outra coisa. Enfim, achei um, jantei – jantamos, Dib Carneiro estava comigo –, fui para casa e desabei. Havia comprado o último número de ‘El Amante’, revista argentina de cinema. É o oposto da “Teorema” (gaúcha), que se pauta pelo cinema cabeça. ‘El Amante’ tem esse nome porque acho que, mais do que cinéfilos, seus críticos são amantes de cine. Dei hoje uma folheada, a caminho do jornal. A revista faz uma brincadeira com seus colaboradores. Uma enquete com três tópicos – dois filmes que lhes dão ganas de (re)ver, dois importantes que não gostariam de (re)ver e dois que nunca verão inteiros porque abandonaram no meio. O campeão da deserção é, ha-ha, ‘A Fita Branca’, de Michael Haneke, mas também são citados ‘A Aventura” (Antonioni), ‘Asas do Desejo’ (Wenders) e ‘O Senhor dos Anéis’ (Peter Jackson). Entre os que não querem (re)ver, estão Pasolini (‘Saló’), Lucrécia Martel (‘O Pântano’), Wajda (‘Katyn’) e Corneliu Porumboiu (‘Polícia, Adjetivo’). São, como diria Arnaldo Jabor, críticos pop e, para confirmá-lo, oferecem duas portadas (capas) – uma com ‘Um Parto de Viagem’, e Todd Phillips é reputado como um dos autores mais importantes da atualidade, e outra com ‘A Rede Social’, de David Fincher. A propósito, ontem, ao redigir correndo, no aeroporto, aquele post – se o avião caísse, vocês saberiam que eu adorei o novo Fincher (puta mau gosto, a piada, não o filme) –, não cheguei a assinalar dois aspectos importantes. Um deles que o tema da amizade masculina, essencial em ‘A Rede”, me fez lembrar justamente ‘Um Parto de Viagem’ (e os críticos de ‘El Amante’ não estão equivocados) e também que a estrutura narrativa de Fincher propõe um puzzle desmistificador como o do cultuado ‘Cidadão Kane’, sem seguir a mesma trilha. Não vou cagar, perdão, nos críticos de ‘El Amante’, como Zé Geraldo Couto faz no Jabor, mas confesso que não consigo viajar nessa genialidade de Todd Phillips. Fico sempre mais constrangido do que relaxado para achar graça. Tenho lá minhas idiossincrasias, em matéria de humor (ou o quê) e uma delas é achar que Judd Apatow é mais interessante do que Woody Allen, mas nem me passa pela cabeça tentar instituir isso como verdade absoluta. Fique com seu Woody Allen, se você o prefere. Só para concluir – vou dar uma folga, parando de postar sobre ‘A Suprema Felicidade’, mas não resisto a um derradeiro post. Fui convidado para ser jurado em Brasília neste ano, mas tive de declinar, embora esteja nos cascos para conferir a estreia de Eryk Rocha na ficção. Já fui jurado há dois ou três anos, talvez mais. Era o ano em que concorriam Evaldo Mocarzel, por não me lembro mais com qual de seus ‘trocentos’ documentários, Belmonte (‘A Concepção’) e Ruy Guerra (‘Veneno na Madrugada’). Sem que houvesse nenhuma pressão da organização, havia meio que um circo interno montado para premiar Ruy Guerra. Eu resistia porque o veneno, ali, é muita mise-en-scène para pouco filme. Foi quando chegou ‘Eu Me Lembro’, de Edgar Navarro. Claro que o filme encantou a todo o júri, mas fui guerreiro para que não houvesse divisão e ‘Eu Me Lembro’ ganhasse um mundaréu de prêmios. A boca pequena, sei que nosso júri foi criticado. Afinal, o filme de Navarro não seria tudo aquilo. Agora, é. Com grande alegria, vejo hoje em dia meio mundo elogiar ‘Eu Me Lembro’ (contra Jabor, mas faz parte). É minha suprema felicidade ver que nosso júri, afinal, estava certo.