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Luiz Carlos Merten

10 Fevereiro 2012 | 21h49

BERLIM – Talvez me arrependa amanhah, embora naoh creio que seja o caso, mas por isso mesmo vim correndo para o hotel. Passei no Maredo, para uma sopa (gulash) com vinho, e aqui estou, ansioso para postar. Acabo de assistir a Outubro, de Sergei M. Eisenstein, na versaoh reastaurada (e com acompanhamento musical). Lembrei-me, juro, de Leon Cakoff. Renata de Almeida estah aqui, garimpando atracoes para a proxima Mostra, e ela talvez faca o que tenho certeza que Leon gostaria – levar para Saoh Paulo esse verdadeiro monumento do cinema. Naoh vou dizer que tenho minhas diferencas com Eisenstein, mas eh como se fosse. Naoh sou louco de negar a importancia da sequencia da escadaria de Odessa em O Encouracado Potemkin nem a da batalha no gelo de Alexandre Nevski. Mas nunca fui um admirador ardente de Eisenstein e ateh escrevi um livro para sustentar que a cena do assassinato na ducha em Psicose, de Alfred Hitchcock, eh taoh importante ou mais do que Odessa, pelo menos para o cinema pos-anos 1960. Boa parte dele, e todo o conceito audiovisual da MTV, vem da morte de Marion Crane, goste-se ou naoh. Mas hoje tive a revelacaoh. Outubro eh um daqueles filmes miticos, malditos, na historia do cinema. A reconstituicaoh que Eisenstein fez daqueles dez dias que abalaram o mundo, em outubro de 1917, virou um dos filmes mais perseguidos e censurados do cinema. O filme eh uma obra de propaganda, como era Potemkin, quem negar isso estarah mentindo. Mas, quando Eisenstein fez seu filme, dez anos depois dos fatos, a questaoh essencial do poder jah se redesenhara na Uniaoh Sovietica e a consolidacaoh de Stalin implicou numa revisaoh – foi preciso ajustar a historia ao grupo palaciano. Logo na abertura da nova versaoh de Outubro, um letreiro informa que ninguem sabe direito qual era a duracaoh do filme ao estrear, em 1928. O que se sabe eh que ele foi sendo cortado, mutilado para minimizar a importancia revolucionaria dos desafetos do lider. A versaoh que vi ontem recupera material perdido e eh a mais proxima que jah houve daquilo que Eisenstein planejou. Eh a mesma versaoh? Naoh hah nenhum testemunho de ninguem vivo para garantir que sim. Mas agora, em definitivo, esse eh o meu Eisenstein. Um epico grandioso, poderoso, quer resume todas as ideias de montagem do autor e cria metaforas visuais taoh insolitas – e ousadas – que eh como se a gente estivesse assistindo, em 2012, ao (re)nascimento do proprio cinema. Claro que o filme vem acompanhado de palavras de ordem sobre o papel do Partido Comunista e a revolucaoh proletaria. Tudo isso parece coisa de museu, mas eu pelo menos nunca deixo de sonhar com um outro mundo possivel. O acompanhamento ao vivo ajudou, vou ter de descobrir o nome do maestro para minha materia no jornal. Agora, quero soh registrar que estou em transe. Eisenstein! Foi preciso chegar aos meus 66 anos – e a 84 depois da estreia de Outubro – para que o reconhecimento do genio naoh fosse soh uma admiracaoh fria. Tudo o que vier agora na Berlinale serah lucro. Para mim, ela jah estah mais do que justificada.