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Luiz Carlos Merten

25 Janeiro 2010 | 18h16

TIRADENTES – Em Paris, encontrei como oferta – apenas 6,50 euros, na verdade foi na livraria do Beaubourg – um livro que achei que poderia ser interessante, “Eisenstein at 100, a Reconsideration’. Trata-se de uma coletânea de ensaios organizada por Al LaValley e Barry P. Sherr, tomando como gancho o centenário de nascimento de Sergei M. Eisenstein, comemorado com um seminário no Dartmouth College, em 1998. O livro vinha numa embalagem fechada, mas olhei a contracapa e os autores informavam que o fim do império soviético e a abertura de arquivos permitiam uma nova abordagem de temas antes proibidos sobre o autor. Comecei a ler no avião, entre São Paulo e Belo Horizonte e, depois, na van que fazia o transporte entre o aeroporto e Tiradentes. Consegui ler bastante e foi uma ótima aquisição, principalmente considerando-se a relação custo/benefício. Fala-se tanto em Eisenstein, mas não com essa abordagem. Por exemplo, a maioria da crítica analisa o primeiro e o segundo Eisensteins, destacando a importância da teoria da montagem expressa em ‘Greve’ e ‘O Encouraçado Potemkin’, para em seguida se concentrar nas dificuldades do artista não apenas com o regime, mas também em suas andanças pelo exterior, quando visitou os EUA e filmou o inacabado ‘Que Viva México’. Uma das novidades do livro é que resgata o Eisenstein final, destacando a importância da montagem atonal de ‘Ivan’ e também ressaltando os elementos autobiográficos que permeiam o díptico sobre o tsar que entrou para a história como o ‘terrível’. Esse último Eisenstein se preocupa mais com a mise-en-scène e transforma seu cinema em ópera, buscando a arte total.Vamos por partes. É muito difícil alguém discutir a homossexualidade ou, vá lá que seja, a bissexualidade de Eisenstein, mas é o que faz o próprio Art LaValley. Ele começa fazendo uma colocação interessante. Eisenstein é um dos autores de cinema mais estudados do mundo, mas não são muitas as mulheres, e menos ainda feministas de carteirinha, interessadas em se debruçar sobre ele. O motivo é simples – o cinema de Eisenstein é parco nem figuras femininas marcantes e, menos ainda, fortes. O homoerotismo, porém, transparece em ‘Que Viva México’ e ‘Ivan’, a ponto de permitir uma abordagem específica do assunto nesses filmes mais do que nos demais, embora a simbologia fálica de ‘A Regra Geral’, também conhecido como ‘O Velho e o Novo’, mereça uma análise em separado. (É um dos poucos filmes de Eisenstein que tem uma mulher forte, mas a inspetora é andrógina, quando não masculina. A mãe que conspira em ‘Ivan’ é outra coisa, inspirada que foi na madrasta de ‘Branca de Neve’.)
Pronto – abri outro parágrafo para que vocês possam respirar. Outra coisa a que o cinéfilo está acostumado é a discussão sobre o ateísmo de Eisenstein e sua crítica à Igreja e aos padres, mostrados como corruptos e venais. Rosamund Bartlett propõe outra leitura. Ela faz uma conexão muito original entre a obra de Eisenstein e o pensamento de um propagandista e teórico ortodoxo que foi seu contemporâneo, Florensky. A trajetória desse último foi oposta à de Eisenstein, que foi hiperreligioso quando jovem e, mais tarde, progressivamente se afastou da religião. Florensky foi um pândego que virou místico e religioso a partir de suas teorias sobre a busca do êxtase no rito ortodoxo e o que Rosamund propõe é que a busca de Eisenstein pela arte total, na verdade, segue os passos estabelecidos por Florensky em seus escritos. Para quem duvida, ela faz uma análise muito detalhada dos blocos de filmes e como o êxtase entra neles, exatamente como Florensky buscava, ou sugeria. E há, ainda, o estudo de Andrew Barrett, que num texto sugestivamente chamado ‘In the Name of the Father’, faz a conexão entre Eisenstein e Andrei Tarkovski. Preocupado em esculpir o tempo, por meio de planos longos etc, Tarkovski minimizava, quando não contestava, as teorias de montagem de Eisenstein. Barrett prova, por A + B, que sem Eisenstein não haveria ‘Andrei Rublev’ – que eu, particularmente, prefiro a ‘O Espelho’ e ‘O Sacrifício’. Foi uma aquisição bem interessante, a deste livro sobre Eisenstein, que ainda tem capítulos dedicados ao construtivismo, às relações do diretor com o regime comunista (e Stálin), sua influência sobre o cinema russo, o europeu de maneira geral e o mundial. Todo Eisenstein num volume. Belo poder de síntese, o dessa ‘reconsideração’.