Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Efemérides

Cultura

Luiz Carlos Merten

22 Agosto 2011 | 23h34

Completam-se hoje 30 anos da morte de Glauber Rocha. Mais um pouco e eu teria de escrever – completaram-se ontem. Também se comemora – hoje -, Maria do Rosário Caetano me informou na cabine de ‘O Homem do Futuro’, de Cláudio Torres, outra data redonda,. esta mais festiva – os 80 anos de nascimento de Ruy Guerra. São as duas maiores figuras do Cinema Novo. Por mais que admire Nelson Pereira dos Santos e sua contribuição ao cinema brasileiro, Nelson foi incorporado ao movimento e lhe deu um de seus clássicos – ‘Vidas Secas’, que adaptou do livro de Graciliano Ramos, mas eu hesitaria em colocá-lo na mesma linha de frente de Glauber, Ruy ou Leon Hirszman, que era considerado as cabeça pensante, o ideólogo do Cinema Novo. Glauber era o quê? O profeta, talvez. Em Gramado, nem me lembro quem, um colega jornalista me cobrou por que a crítica gaúcha dos anos 1960 era tão hostil ao Cinema Novo, e a Glauber? Sinceramente, não sei. A pesquisadora Fatimarlei Lunardelli tinha uma tese, que não sei se chegou a desenvolver, que via na formação positivista do Estado a pedra de toque da rejeição ao baiano mais arretado e barroco do cinema. Mas, também, pode ter sido uma leitura inadequada ou colonialista da obra glauberiana, numa época em que a minha geração era muito embebida da teoria dos autores de ‘Cahiers du Cinéma’, que, como todo mundo sabe, privilegiava Hollywood. Enéas de Souza fez interessantes análises de Glauber e Nelson no livro ‘Trajetórias do Cinema Moderno’, mas aponta limitações, senão exatamente defeitos, em ambos. Os conceitos da descontinuidade e do trasnse parecem lhe escapar, mas Enéas, ao voltar da Europa, onde fora estagiar, regressou convencido de que Glauber era o homem, aos olhos do mundo. Jeferson De, em Gramado, me deu suas razões para considerar ‘Barravento’ o Glauber dele – faz sentido -, mas não é o meu. O Glauber que me interessa é o bipolar de ‘Deus e o Diabo’, ‘Terra em Transe’ e ‘O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro’ (‘Antônio das Mortes’). De Ruy Guerra, amo os dois primeiros filmes, ‘Os Cafajestes’ e ‘Os Fuzis’, cuja mise-en-scène me parece mais elaborada – e acabada – do que a dos primeiros filmes de Glauber. Respeito ‘Os Deuses e os Mortos’, mas quando penso no filme o que me vem é a trilha, ‘A Matança do Porco’, que nunca deixou de ressoar em meus ouvidos, e ‘A Queda’. Considerando-se que Ruy foi, e é, tão ligado a Gabriel García Márquez, de novo me exponho à execração, mas a parceria dos dois eu agradeço (e dispenso). Adoro outra parceria, a de Ruy e Chico Buarque, na música, mas ‘A Ópera do Malandro’ já me antecipa o peso mortal de ‘Veneno da Madrugada’. Nunca vi ‘Sweet Hunters’, o filme em língua inglesa do autor. Ele próprio me prometeu uma cópia, que espero até hoje.Talvez com isso possa dar a impressão de estar minimizando Ruy na festa de seus 80 anos, mas lamento se parece isso. ‘Os Cafajestes’ e ‘Os Fuzis’ me bastam para achar que o Prêmio Multicultural Estadão Cultura, que Ruy Guerra recebeu, foi totalmente merecido. Lamento que, num momento de dificuldade ou de crise, o jornal tenha acabado com o prêmio, como havia acabado com o Sací, que atribuiu nos anos 1950 e início dos 60. São 30 anos sem Glauber e 80 de Ruy. Me parece impossível imaginar o cinema brasileiro sem as contribuições dos dois.

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Encontrou algum erro? Entre em contato