Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Edward Yang

Cultura

Luiz Carlos Merten

01 Julho 2007 | 13h18

Estou aqui na redação do Estado. Há pouco, Lauro Lisboa Garcia me perguntei se um diretor de Taiwan chamado Edward Yang era importante. Claro que é – e como! Perguntei por que? Porque ele acaba de morrer, aos 59 anos, de câncer no cólon, num hospital de Beverly Hills. Durante sete anos, Yang manteve a doença privada, embora seus admiradores devessem ter-se flagrado – desde Yi-Yi, em 2000, ele não havia produzido mais nada. O filme ganhou o prêmio de direção em Cannes, em 2000, no ano em que Dançando no Escuro, de Lars Von Trier, ganhou a Palma de Ouro. Apesar do culto a Von Trier e ao seu musical com Bjork, que virou o filme-manifesto das novas tecnologias, leia-se o digital, ouso dizer que Yi-Yi era melhor. O filme se chamou no Brasil As Coisas Simples da Vida. O título era enganoso. De simples é que Yi-Yi não tinha nada, exceto, talvez, uma limpidez do olhar, que o diretor perseguia, talvez por ter consciência da complexidade do próprio material. Yang nasceu em Shangai, na China, mas desenvolveu sua carreira em Taiwan. É um dos grandes asiáticos menos conhecidos pelo público brasileiro. Tsai Ming-liang, também de Taiwan, é figurinha carimbada da Mostra, mas Yang? A Cunfucian Confusion e A Bright Summer Day são lindos. Vi na França, num cineclube, numa homenagem ao diretor. Talvez tenham passado na Mostra. Não me lembro. Y-Yi, sim, passou na Mostra e estreou depois. Yang usa dramas familiares para fazer o inventário da sociedade taiwanesa. Todo o relato se articula em torno do personagem interpretado por Wu Nianzhen, ele próprio roteirista e diretor de expressão em Taiwan. O cara precisa viajar para o Japão. Reencontra um amor de juventude. Só isso já bastaria para fazer o protagonista repensar sua vida, mas o drama da sogra, que está em coma no hospital e que se reflete nos demais personagens em cena – nele, na mulher, na filha, no namorado da garota e no filho mais jovem, Yang-Yang (Yi-Yi) – leva ao discurso final que encerra o complexo sentido das coisas simples da vida. Yang via o mundo pelos olhos do garoto. O pai e ele representavam diferentes idades do homem, quase como se fossem a mesma pessoa. Participei de um grupo com ele em Cannes. Yang recusava a etiqueta de autor oriental porque dizia que a internet havia suprimido as fronteiras. Lembro-me de que houve uma polêmica no grupo, porque nossa idéia era de que a regionalização virou uma forma de resistência no mundo globalizado. Hoje, até mais do que na época de Tolstoi, só sendo local é possível ser universal. É material para discussão, reconheço. Edward Yang era contra fronteiras. Dizia que tudo se resumia a filmes bons e ruins. Os dele era bons. Edward Yang vai-se e eu tenho impressão que, para muita gente, se trata de um desconhecido.

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Encontrou algum erro? Entre em contato