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Ecos de ‘Shane’

Luiz Carlos Merten

01 Janeiro 2012 | 12h22

Estou voltando do cemitério, onde fomos para o enterro de Daniel Piza. Dib Carneiro Neto, João Luiz Sampaio e eu. É impressionante como, atré diante da morte, minhas referêncvias são cinematográficas. Lembrei-me de filmes como ‘Sem Lei, sem Alma’, de John Sturges, com aquela balada – cantada por Rick Laine – na abertura. O delegado chega à cidadezinha e a primeira coisa que vemos é o cemitério. Outro filme – ‘Os Mortos’, de John Huston. Sempre me impressionou muito que um aventureiro como Hustron – será que ele trinha o pressentimento? – tenha encerrado sua obra com aquela imagem que remete à paz dos cemitérios. Acho que há sempre um conforto, pode ser uma impressãso minha, subjetiva, quando a gente acompanha os gestos repetidos dos coveiros. A terra lançada sobre o caixão, o barulho das pás quando o cimento cobre a laje. Aquele som, o silêncio dos acompanhanmtes, quebrado só pelo choro da viúva, tudo me remeteui a ‘Shane’, Os Brutos também Amam, de George Stevens. A cena do enterro de Stonewall é um dos grandes momentos do cinema – o filme todo é um marco. A morte do pequeno fazendeiro, que não era páreo para Wilson, Jack Palance – o maior vilão da história do western -, leva Van Heflin a querer pegar em armas em defesa de sua família, mas Alan Ladd sabe que ele tasmbém não terá chance contra Wilson e se antecipa. Esse é o efeito, digamos, dramatúrgico da cena, a forma como ela faz a narrartiva andar. Mas a cena é ainda mais impressionante como construção cinematográfica – o nervosismo dos cavalos, a lamúria do cachorro e as pessoas hieráticas, com roupas escuras, recortadas contra o céu. Ao chegar em casa, tentei localizar a coleção de ‘Filme Cultura’, a edição facsímile editada pelo MinC para resgatar a publicação que foi importante nos anos 1960 e 70. Queria reler uma entrevista de George Stevens, tenho certeza de que foi lá, em que ele analisa sua trilogia – ‘Um Lugar ao Sol’, ‘Os Brutos também Amam’ e ‘Giant’, Assim Caminha a Humanidade, e os filmes formam um marco daquilo que se chama de ‘americana’ -, afirmando que os fez com base na sua capacidade de observação e conhecimento sobre as pessoas. Stevens ganhou duas vezes o Oscar de direção – por ‘Um Lugar ao Sol’ e ‘Assim Caminha a Humanidade’ – mas sempre houve controvérsia quanto a ele e seu método. Stevens adquiriu o finasl cut, o direito de montar seus filmes, quando os mopntadores de ‘Gunga Din’ ficaramn t~sao confusos com o material rodado que não achavam a estrutura do relato. Ele filmava tudo, a menor cena, de diversos ângulos e, depoios, escolhia as melhores tomadas na montagem. Para ops críticos de ‘Cahiers du Cinéma’, na fase de capa amarela, isso era a própria negação do conceito de mise-en-scène. Na verdade, foi a arma de Stevens para se impor numa indústria que, em geral, negava aos diretores, mesmo os maiores, o final cut. Estou aqui delirando sobre George Stevens, mas cenas – de ‘Shane’ – como a do cemitério, o duelo de machados de Alan Ladd e Van Heflin para arrancar a árvore e o embate final entre os pistoleiros são daqueles momentos que carrego comigo. Se me perguntassem o que é o cinema, bem poderia ser aquilo.